Zumbis são expansionistas por natureza. Não se contentam em ficar num lugar somente, alastrando-se e criando novos mortos-vivos de forma interminável. Sem perder essa noção de rápida propagação e descontrole, “Invasão Zumbi” adiciona outros elementos ao formato.
 
Ao deixar seus personagens tête-à-tête com os raivosos mordedores, dentro de um trem-bala, o filme sul-coreano – grande sucesso no exterior e em cartaz a partir de amanhã nos cinemas – permite o desenvolvimento de outras situações, que dizem respeito mais aos personagens humanos.
 
Zumbis geralmente são mote para tecer críticas à globalização, à falta de cuidado com a ecologia ou às pesquisas com armas biológicas, sempre colocando a população à mercê de um vírus que provoca muitas baixas em pouco tempo e, principalmente, capaz de tornar um familiar em seu grande inimigo.
 
Confinamento
O que não quer dizer que as ações do gestor de investimento Seok-Woo não impactem a sociedade, como entenderemos ao final, mas a narrativa está mais interessada nos pequenos dramas, a começar pelo próprio executivo, um workaholic, recém-separado e que não consegue dar atenção à filha.
 
O confinamento e a luta pela sobrevivência levarão a uma auto-avaliação, sobre o que é mais importante. Mas seria um filme melodramático, se contentasse apenas em corrigir falhas de caráter em meio à sanguinolência. O filme evita o caminho fácil da redenção a partir dos sobreviventes da viagem.
 
Nessa eleição por quem morre ou chega ao final, muitos espectadores praguejarão contra os roteiristas, o que faz desse filme corajoso em certo aspecto, nos remetendo a “O Destino do Poseidon”, em que aqueles que se salvam não são necessariamente os que mais lutaram e guiaram as pessoas.
 
Mundo real
Não é difícil, porém, entender essas escolhas em “Invasão Zumbi”, que, sim, tem um viés religioso, ao falar de uma purificação que vem do próprio ser, de instintivamente querer o bem ao outro sem receber nenhuma vantagem em troca – as cores claras das roupas ampliam essa visão celestial.
 
Não é, porém, esse moralismo que se impõe. Aos poucos, a história constrói relações que vão além do universo fantasioso (até segunda ordem, zumbis não existem), conectando-se novamente ao mundo real e suas distorções, como abuso de poder, egoísmo, falta de compreensão e união.
 
“Invasão Zumbi” vai mais fundo do que seus congêneres, não limitando-se a criticar a inope-rância dos governantes. Esses mesmos comandantes partilham de um mal comum à sociedade, em que prevalece o “você deve pensar em você primeiro”, como alerta Seok-Woo à filha.
 
Destino: Busan
Antes de se contaminarem após serem mordidos, muitos dos passageiros já estariam contaminados por esses sentimentos mesquinhos. Assim, a viagem do trem-bala surge, metaforicamente, como um retrospecto dessas atitudes. Ele tem um destino (Busan), mas ninguém sabe o que os espera.