A polêmica licitação destinada à compra de sorvetes importados para o avião do presidente Michel Temer não se compara, nem de longe, ao que o governo federal gastou com festividades e homenagens neste ano.

Hoje em Dia

Dados da ONG Contas Abertas revelam que R$ 47,2 milhões foram gastos pela União com eventos de janeiro a novembro de 2016. O valor seria suficiente para construir cerca de 675 moradias do programa Minha Casa, Minha Vida, considerando que cada unidade habitacional tenha o custo médio estimado em R$ 70 mil.
Conforme o levantamento, os desembolsos com festividades e homenagens são maiores, por exemplo, do que o valor investido em obras e na aquisição de equipamentos pelo Ministério do Meio Ambiente, que gastou R$ 45,1 milhões, e do Ministério das Comunicações, ao custo de R$ 19,1 milhões no mesmo período.
O dinheiro disponível para essas despesas também é maior do que a verba prevista para 2017 em programas destinados à preservação de florestas, prevenção e controle do desmatamento e incêndios, de atuação para controle e fortalecimento do Ministério Público e a para a Central de Atendimento à Mulher.
Festeiros O Ministério da Cultura foi o maior responsável por estes gastos em 2016. A Pasta desembolsou R$ 12,5 milhões com itens como o coffee break do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na XX Feira Pan-Amazônica do Livro, por exemplo, que custou R$ 5 mil. Dentre os gastos ainda estão R$ 2,2 mil com buffet para realização do evento de encerramento da “Décima Primavera de Museus” do Museu Regional de São João del-Rei.
O Ministério da Educação ocupa o segundo lugar no ranking, com R$ 10,8 milhões pagos em comemorações neste ano. Na lista de despesas constam R$ 427 mil para a locação de equipamento de áudio, vídeo e foto para o congresso de 70 anos da Universidade Federal da Bahia.
Além disso, o mesmo evento demandou R$ 94,3 mil para aquisição de arranjos ornamentais, locação de toldos e UTI móvel.
No caso do Ministério da Defesa, o terceiro colocado, as despesas ficaram em R$ 6,2 milhões. Na lista de celebrações, serviços de buffet para passagens de comando, aniversário de corporações, despedidas, confraternizações, incluindo as de fim de ano, e até mesmo serviços para funeral.
Incoerência Para o economista e fundador do Contas Abertas, Gil Castello Branco, os gastos com festividades e homenagens não condizem com a realidade fiscal do país. Para ele, falta ao governo uma postura mais rígida, já que o corte de gastos é indispensável para o reequilíbrio das contas públicas.
“Os custos deste ano foram menores do que os do ano passado, mas ainda assim são muito altos. Com Estados decretando calamidade, acho que os governantes precisam dar exemplos de austeridade. Há uma série dessas festividades que são totalmente dispensáveis. No caso dos militares, por exemplo, uma simples troca de comando gera gastos com buffet. É algo incabível”, avalia.
A secretaria da Presidência da República foi procurada pela reportagem, mas não se manifestou até o fechamento da edição. 
Investimentos em segurança no trânsito ainda são insuficientes Os investimentos governamentais voltados para reduzir o número de mortes nas rodovias brasileiras estão aquém do que poderiam em 2016. Dos R$ 997,1 milhões autorizados no orçamento para projetos relacionados à educação e segurança no trânsito, apenas 12,4% foram efetivamente desembolsados até o mês de novembro.
 

Trânsito
MONTANTE – Quase R$ 9 bilhões foram autorizados para ações preventivas de acidentes de trânsito entre 2008 e 2016; somente 18,7% desse total foram efetivamente utilizados
Os dados foram compilados pela ONG Contas Abertas e tiveram como base o Fundo Nacional de Segurança e Educação no Trânsito (Funset), gerenciado pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), do Ministério das Cidades, por intermédio do programa Mobilidade Urbana e Trânsito.
Na prática, a maior parte do orçamento autorizado para o Funset acabou alocado na chamada Reserva de Contingência. Em 2016, a rubrica representa 91% do total dos R$ 997,1 milhões orçados para o fundo. Em outras palavras, R$ 906,7 milhões ficam congelados no orçamento.
Isso acontece porque a Reserva de Contingência costuma ser utilizada para minimizar o déficit primário do governo federal, ou seja, os recursos são contingenciados e auxiliam no fechamento das contas. No ano passado, a reserva atingiu 85% do total dos R$ 982,4 milhões orçados para o fundo.
Sem novidade O “congelamento” de recursos dentro do Funset, no entanto, acontece há anos. Os dados da Contas Abertas mostram que entre 2008 e 2016, considerando o período de janeiro a novembro, apenas R$ 1,7 bilhão foi efetivamente aplicado nas iniciativas de segurança e educação no trânsito. O montante representa apenas 18,7% dos R$ 8,9 bilhões autorizados durante os exercícios.
O Ministério das Cidades afirmou que “o contingenciamento orçamentário e financeiro diminui a capacidade do Denatran de enveredar esforços nas ações propostas pelo Funset”. Dessa forma, faltam recursos para fortalecimento do Sistema Nacional de Trânsito, para o fomento a projetos destinados à redução de acidentes no trânsito, para iniciativas de educação e cidadania no trânsito, assim como para publicidade dessas ações.
Rodovida Hoje, a Operação Rodovida é a principal ação do governo para combater mortes no trânsito. A ação prevê fiscalização mais intensa em 100 trechos críticos de rodovias pelo país, com esforço integrado de órgãos federais, Estados e municípios.