Terço dos Homens ganha fiéis e se espalha por Minas Gerais

Estimativa é que só na região metropolitana de BH existam 250 grupos sem a presença feminina

Toda terça-feira à noite, centenas de homens de Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte, têm compromisso certo: rezar o terço e conhecer um pouco mais sobre a história de uma das centenas de denominações de Nossa Senhora. Não importa se é feriado, nem se está chovendo, como aconteceu na semana passada: os 50 bancos de madeira da tricentenária matriz de Nossa Senhora da Conceição são sempre insuficientes para acomodar os fiéis, e é preciso colocar cadeiras nas laterais e, muitas vezes, ocupar a parte de fora da igreja. “Pode ser até terça-feira de Carnaval que eu estou aqui”, conta o metalúrgico aposentado Mário Gonçalves, 69.

O grupo, que tem 1.300 homens cadastrados, sendo cerca de 700 frequentadores assíduos, faz parte do Terço dos Homens, que congrega grupos de orações formados exclusivamente por homens. Somente na região metropolitana da capital, são cerca de 250, segundo o padre Carlos Antônio Silva, coordenador do Terço dos Homens da Arquidiocese da capital. A maioria se formou nos últimos sete anos e vem crescendo recentemente. Há grupos em todo o país, mas a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não tem números nacionais, porque os grupos são formados em cada paróquia. Em Minas Gerais, o maior é também o pioneiro e fica em Itaúna, na região Central. Lá, são 3.000 fiéis cadastrados.

“Salve, Maria”. Reunir apenas os homens para rezar é uma forma de incentivá-los a participar da igreja, diz Maurílio Rabelo, 52, um dos coordenadores do grupo de Sabará. “Quando as mulheres estão, eles ficam inibidos. Só entre homens, eles se soltam, cantam, resgatam sua fé. E isso acaba sendo bom para a família toda. Muitos homens, quando saem daqui, voltam para resgatar a família que ele mesmo estava destruindo”, afirma Rabelo.

O grupo foi criado há oito anos e mudou a relação dos homens da cidade com a religião, diz o mecânico de manutenção Ênio Pereira de Souza, 63, responsável por conduzir a oração desde o primeiro encontro. “Era difícil ver um homem com um terço na mão”, lembra. Hoje, além do terço, eles ostentam orgulhosos camisas do grupo, com os dizeres “Rosário na mão e Maria no coração”, e adotam o “Salve, Maria”, como saudação em qualquer lugar onde se encontram “É o nosso ‘bom dia’, ‘boa tarde’ e ‘boa noite’”, diz Rabelo.


Apelido

‘Número 1’ chega duas horas antes

“Ave Maria, mãe de tantos nomes, aqui estão os homens, todos filhos seus”. A música é a primeira de muitas que os homens de Sabará, na região metropolitana da capital, entoam durante exata uma hora e quinze minutos toda terça-feira e resume bem o sentimento do grupo. Entre uma canção e outra, eles rezam 50 “Ave-Marias” e cinco “Pai-Nossos”, completando os mistérios do terço.

As orações começam às 20h, mas, duas horas antes, o garçom Antônio Alves, 80, já está na igreja. O hábito lhe rendeu o apelido de “número 1”. “Chego cedo para fazer minhas orações em todos os altares (a igreja tem sete nas laterais) e para ajudar a organizar o terço”, conta ele, que participa do grupo desde o início.

O pedreiro Amarildo Jerônimo Pereira, 38, chegou atrasado, mas sua presença, junto com os dois filhos, Felipe, 10, e Alisson, 7, foi motivo de alegria para seu irmão, Glaysson Rodrigo Pareira, 31. “Tem muito tempo que insisto pra ele vir. A fé está fazendo muito bem pra mim, e quero que ele viva isso também. Se deixar, só a mulher reza”, diz.

Fonte: O Tempo