Perdoar crimes ameaça a democracia, diz Moro

Juiz alerta para riscos que eventual anistia à corrupção pode trazer ao futuro do país

O Tempo

Alerta. Nota de Moro é a primeira manifestação pública do juiz contra as articulações dos deputados

CURITIBA. O juiz federal Sergio Moro, responsável pela operação Lava Jato, divulgou nota pública ontem alertando para os riscos que a eventual anistia dos crimes eleitorais de corrupção e de lavagem de dinheiro pode trazer à operação Lava Jato e ao “futuro do país”. Isso porque deputados tramam aprovar na Câmara projeto anticorrupção que deve incluir perdão ao caixa 2 e punição a juízes e procuradores por crime de responsabilidade. “Toda anistia é questionável, pois estimula o desprezo à lei e gera desconfiança”, adverte Moro. É a primeira manifestação pública de Moro contra as articulações dos parlamentares.
Para o magistrado, a anistia “deve ser prévia e amplamente discutida com a população e deve ser objeto de intensa deliberação parlamentar’. “Preocupa, em especial, a possibilidade de que, a pretexto de anistiar doações eleitorais não registradas, sejam igualmente beneficiadas condutas de corrupção e de lavagem de dinheiro praticadas na forma de doações eleitorais, registradas ou não”, diz trecho da nota. “Anistiar condutas de corrupção e de lavagem impactaria não só as investigações e os processos já julgados no âmbito da operação Lava Jato, mas a integridade e a credibilidade, interna e externa, do Estado de direito e da democracia brasileira, com consequências imprevisíveis para o futuro do país. Tem-se a esperança de que nossos representantes eleitos, zelosos de suas elevadas responsabilidades, não aprovarão medida dessa natureza”, completa.
“Sem surpresas”. O procurador geral da República, Rodrigo Janot, disse ontem, em evento que debatia as medidas do pacote anticorrupção com integrantes da Organização das Nações Unidas (ONU), esperar a aprovação do pacote “sem surpresas e sem más notícias”.
O procurador ressaltou o fato de o projeto ter sido apoiado pela sociedade, com quase 2,5 milhões de assinaturas. “Esperamos que o Parlamento tenha a sensibilidade de, em plenário, aprovar o contexto da proposta das dez medidas. Confio na sensibilidade do Parlamento em ouvir a voz do cidadão”, disse Janot. “Estou convencido e seguro de que o Brasil de amanhã será melhor do que o Brasil de hoje”, afirmou Janot. Segundo ele, a Lava Jato conseguiu trazer para a discussão "a estrutura judiciária do Brasil".