Um diálogo entre Sigmund Freud (1856-1939) e Salvador Dalí (1904-1989) é a linha mestra da peça “Histeria”. É o recorte do momento em que os dois gênios – um da ciência e o outro das artes – se encontraram, em 1938, quando o pintor surrealista esteve na casa do médico, em Londres. 
Não há registros da conversa. O autor inglês Terry Johnson, contudo, resolveu arriscar e o resultado pode ser conferido na peça em cartaz nesta sexta-feira (25) e sábado (26), no Grande Teatro do Palácio das Artes. A direção é de Jô Soares, que traduziu o texto e decidiu trazer a montagem para o Brasil depois de assisti-la em Paris, 13 anos atrás.
Trata-se de uma comédia. E o delírio é como um personagem à parte. Não haveria de ser diferente. Estabelecer conexões entre duas das figuras mais excêntricas registradas pela história é complicado para qualquer psique humana. Excêntricos para dizer o mínimo, diga-se de passagem. 
Pedro Paulo Rangel, que dá vida à Freud, vai além. “Paradoxalmente, a loucura é a característica que, ao mesmo tempo, assemelha e diferencia Freud e Dalí”, pondera. 
O ator divide a cena com Cassio Scapin, que interpreta Dalí, e com Erica Montanheiro e Milton Levy. 
A trama
Numa das sequências mais absurdas da trama, Dalí encontra Freud em seu consultório. O médico, atrapalhado por uma série de situações cômicas anteriores, aparece segurando uma bicicleta coberta por caramujos, com uma das mãos presa dentro de uma galocha e com a cabeça enfaixada numa espécie de turbante. Estar na pele do psicanalista não deve ser fácil. Rangel que o diga. 

Escalado para o papel duas semanas antes da estreia nacional em São Paulo, o ator teve pouco tempo para se preparar. “Tive apenas 11 ensaios para uma peça de quase duas horas, na qual meu personagem quase nunca sai de cena. Contei com o auxílio luxuoso do Jô e com a generosidade dos meus colegas de elenco”, afirma ele, que diz ter feito algumas descobertas sobre o psicanalista.
“A mais surpreendente foi, com certeza, a minha total preferência pelo (psiquiatra suíço Carl Gustav) Jung”, brinca.
Pires na mão
Aos 68 anos de idade e mais de 45 de carreira, Rangel fez trabalhos memoráveis também na TV. Foram mais de 50 personagens apenas na Rede Globo, onde ficou até 2013. A demissão ele diz ter encarado com naturalidade e não parece querer voltar às telinhas. “Quarenta anos fazendo televisão está de bom tamanho, não?”, justifica. 

A posição, porém, o faz seguir como a maioria da classe teatral: “de pires na mão para consegui financiamento para produzir um espetáculo, ‘Os Reis do Riso’, de Neil Simon”. 
Serviço:
“Histeria”, nesta sexta-feira (25), às 20h30, e sábado (26), às 18h30, no Grande Teatro do Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1537). Ingressos: de R$ 25 a R$ 100