Quais as lembranças mais marcantes que as pessoas têm dos dentistas? Fora aqueles que vão ao consultório para uma simples limpeza, pode-se apostar que são o barulho do motorzinho, a fricção nos dentes e a dor. Mas essa percepção pode estar com os dias contados e o monopólio do motorzinho também.
A empresa mineira Orto Dente começou neste ano a importar da Argentina o gel Brix 3000, que trata a cárie, dispensando o uso de motorzinho e anestesia.
O produto é aplicado na área afetada do dente, uma ou duas vezes, e depois o dentista retira a cárie com um instrumento adequado, sem a necessidade do uso de motor.

A Orto Dente será a distribuidora nacional do Brix 3000, e o lançamento será no próximo dia 22, em Belo Horizonte. Até a última sexta-feira, mais de 600 dentistas já haviam confirmado presença no evento.
“O que queremos é uma mudança de paradigma. A gente espera vender no primeiro ano algo em torno de 30 mil unidades”, revela o diretor da Orto Dente, Pablo Nunes.
A empresa é especializada na distribuição de material odontológico, e Nunes garante que o gel argentino é o produto mais inovador que ele já comercializou nos 29 anos em que a Orto Dente atua no mercado.

De acordo com o empresário, o produto traz uma nova tecnologia de bioencapsulamento da enzima da papaína. Ou seja, o Brix 3000 conseguiu processar um subproduto do mamão que reage com a cárie e a destrói.
Surpresa
Logo depois que a Anvisa liberou a utilização do gel, há pouco mais de três meses, o dentista Leonardo Ubaldo, que atende em uma clínica particular no bairro Sagrada Família, em Belo Horizonte, começou a utilizar o produto.

Ele conta que inicia o procedimento sem contar para o paciente, e, depois de terminado, fala que utilizou o gel. Ubaldo conta que os clientes têm ficado surpresos e a aceitação está sendo boa.
“Busquei embasamento para ver se realmente poderia usar. Comecei a trabalhar com o gel e o resultado foi muito bom. Pode usar em todos os dentes, independentemente da profundidade da cárie. Não vale apenas para as localizadas superficialmente”, garante. Para Ubaldo, a economia de tempo clínico e com os aparelhos tem valido à pena.
A bisnaga deve ser comercializada por aproximadamente R$ 290, e pode ser utilizada para tratar até 45 cáries. Assim, cada tratamento terá um custo de R$ 6,4.
“Tenho usado em todas as situações. Há a economia de tempo, por exemplo, porque não preciso esperar a anestesia fazer efeito. Um procedimento que durava até uma hora e meia agora realizo em 40 minutos”, destaca Ubaldo.

Além disso, há o conforto para o paciente, de não ter anestesia, de conseguir remover a cárie sem o motorzinho. “Todo mundo tem medo do dentista, era muito traumático”, reconhece.
O gel pode ser utilizado por todos, mas é ainda mais indicado para tratamentos em crianças, pessoas com necessidades especiais, idosos e quem tiver medo do motorzinho ou problemas com os princípios ativos das anastesias.
Motorzinho não deve ser aposentado, pelo menos por enquanto
A novidade do Brix 3000 é vista com bons olhos por especialistas da área, mas eles descartam a aposentadoria do motorzinho, pelo menos no médio prazo.
“Já utilizo no consultório, mas não como rotina. Todo produto tem uma indicação. Este produto não acabará com o motor, isso não está em cogitação. Ele terá suas aplicações”, avalia o consultor técnico da Orto Dente, Alexandre Magno.

Quem concorda com ele é o dentista Leonardo Ubaldo, que tem utilizado o gel no consultório em que atende, em Belo Horizonte. “A odontologia está longe de aposentar o motorzinho”, afirma.
Para Alexandre, a possibilidade de ter um material que agrega valor, mas não que substitui o tratamento tradicional, vai ser interessante para a odontologia.
Um importante benefício virá para pessoas que moram em lugares remotos, em áreas rurais ou indígenas.

Canal
O tratamento dentário mais dolorido é o de canal. E é justamente este em que não se pode utilizar o gel Brix 3000. De acordo com Alexandre Magno, quando a dor é intensa e espontânea, o produto não pode ser utilizado. “Aí tem que ser o motorzinho mesmo”, enfatiza.

De acordo com Alexandre, o produto ataca apenas a cárie, e não agride o esmalte do dente, ou as partes saudáveis.
Atualmente, além de Alexandre Magno, há cinco professores e pesquisadores no Brasil utilizado e testando o produto: três na Universidade do Paraná e dois na Universidade de Bauru (SP).
O produto foi desenvolvido na Argentina e já tem aproximadamente cinco anos de mercado na América do Sul. Segundo Magno, só chegou agora no Brasil porque a odontologia aqui tem muito respaldo e é muito exigente.