Prisão de Cunha paralisou Brasília e espalhou insegurança entre figuras que estão no poder

O temor de uma possível delação premiada do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso ontem na operação “Lava Jato”, paralisou Brasília. 
Hoje em Dia
Votações e sessões na Câmara dos Deputados foram interrompidas, como a que alterava as regras de exploração do pré-sal. A medida também causou apreensão entre auxiliares e assessores do Palácio do Planalto. A Secretaria de Imprensa da Presidência, no entanto, disse que a preocupação do governo “é zero”.
Membros do Conselho de Ética da Câmara defendem a delação premiada como forma de “passar o país a limpo”. Para adversários, a prisão já era esperada, mas aliados consideram que a decisão representa a “queda da República” brasileira e “o fim do governo Temer”.
Alvo da Operação “Lava Jato”, Cunha foi preso na tarde de ontem em Brasília. A prisão foi decretada na ação penal em que o deputado cassado é acusado de receber R$ 5 milhões, que foram depositados em contas não declaradas na Suíça. O valor seria oriundo de vantagens indevidas, obtidas com a compra de um campo de petróleo pela Petrobras em Benin, na África. O processo foi aberto pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas após a cassação do ex-deputado, a ação foi enviada para o juiz Sérgio Moro porque Cunha perdeu o foro privilegiado.
Risco O ex-deputado chegou a Curitiba por volta das 17h15 sob gritos de “Fora, Cunha!”. Ele foi levado para a Superintendência da Polícia Federal, onde ficará preso em uma cela isolada.
Moro pediu a prisão do ex-parlamentar afirmando que sua liberdade representava risco “à instrução do processo, à ordem pública, como também a possibilidade concreta de fuga em virtude da disponibilidade de recursos ocultos no exterior, além da dupla nacionalidade (Cunha é italiano e brasileiro)”, afirma em nota a Justiça Federal do Paraná.
O juiz federal destacou ainda na sua decisão o suposto “caráter serial” dos crimes de corrupção cometidos por Cunha, investigado em mais de um inquérito na “Lava Jato”, o que caracterizaria risco à ordem pública. A Procuradoria da República listou, ainda, fatos que “evidenciaram a disposição de Eduardo Cunha de atrapalhar as investigações”.
A Justiça determinou também o bloqueio de R$ 220 milhões que já haviam sido solicitados pela Procuradoria Geral da República, que não encontrou lastro nas contas do ex-parlamentar no Brasil.
Carros de luxo Foram bloqueados ainda carros de luxo da mulher e da filha de Cunha. Moro encontrou oito carros, entre eles um Porsche Cayenne em nome de Claúdia Cruz, mulher de Cunha, e um jipe Tiguan, registrado por Danielle Cunha, filha do ex-deputado. Os demais veículos estão em nome de empresas ligadas ao ex-deputado, como a Jesus Serviços de Promoção e Propaganda e C3 Produções Artísticas.
Com a decisão, os familiares de Cunha estão impedidos de transferir ou vender os veículos, que serão usados para garantir o ressarcimento aos cofres públicos em caso de condenação definitiva.
O ex-deputado criticou a decisão da Justiça. Em nota, ele chama de “absurda” a medida de Moro e afirmou que seus advogados tomarão “medidas cabíveis para enfrentar essa absurda decisão”.
* Com agências
 

arte Cunha
Ex-deputado teria usado propina para bancar casamento
A força-tarefa de procuradores da Operação “Lava Jato” investiga se o ex-deputado federal Eduardo Cunha usou propina para custear o casamento de uma de suas filhas, Danielle Cunha, em 2011. As suspeitas dos procuradores constam no pedido de prisão, deferido ontem pelo juiz federal Sérgio Moro.

De acordo com os investigadores, o custo do aluguel do hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, para realização da festa foi de R$ 266 mil, mas não há registros de saques em contas bancárias que comprovem a origem dos recursos para o pagamento do serviço.

Segundo os procuradores, a pedido de Danielle, a nota fiscal do aluguel foi feita em nome da C3 Produções, empresa ligada a Cunha e suspeita de lavar o dinheiro obtido ilicitamente por ele. Os pagamentos foram feitos em depósito bancários em dinheiro.

“Embora a questão ainda mereça maior aprofundamento, resta claro que o dinheiro usado para o pagamento do casamento de Danielle Cunha era proveniente de crimes contra a administração pública praticados pelo seu pai, o ex-deputado federal Eduardo Cunha”, afirmam os investigadores.

Repercussão

O jornal inglês “Financial Times” anunciou a prisão de Eduardo Cunha de maneira curiosa. “’Frank Underwood’ do Brasil é preso sob acusações de corrupção”, diz o título da matéria, em referência ao personagem principal da série “House of Cards”.

A publicação destacou que Cunha é “uma das figuras mais odiadas” do país e que foi ele quem orquestrou o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

O inglês “The Guardian” foi outro jornal que comparou Cunha a Underwood. O texto relata que o ex-deputado foi preso pelo juiz Sergio Moro, que “ganhou fama no Brasil” por encabeçar a “Lava Jato”.

O americano “The Wall Street Journal” também destacou o papel de Cunha no afastamento de Dilma e ressaltou que procuradores afirmaram que o acusado poderia fugir, dada a sua dupla cidadania (italiana e brasileira).

Outras quedas
O “Washington Post”, também dos Estados Unidos, ressaltou que analistas dizem que, se Cunha colaborar com as investigações, pode fazer com que outras figuras políticas caiam com ele.

O “El País”, espanhol, disse que Cunha é “maquiavélico, inteligentíssimo, cínico e viciado em trabalho”. A publicação, como outras, afirmou que Cunha impulsionou o impeachment, “segundo muitos, por pura vingança pessoal”.