Jornal flagra ligação de falso sequestro em Campo Grande/MS, confira no vídeo

O que pode parecer um golpe batido e comum para alguns, para outros é motivo de desespero. O famoso trote do sequestro normalmente parte de dentro de presídios Brasil e ainda faz vítimas em todos os Estados brasileiros. 

O Estado Online
 (Foto Reprodução)

Esta semana, a equipe de reportagem do jornal O Estado flagrou um caso de bastante repercussão para a família de uma jovem em Campo Grande. A podóloga Denise Matos estava no balcão de atendimento do setor de classificados do Jornal quando recebeu o telefonema de um homem dizendo que havia sequestrado a filha dela, uma moça de 21 anos.
Em meio à situação, ela, que estava na companhia de uma amiga, colocou a ligação no modo viva voz e quem estava ao redor podia ouvir em alto e bom som quando o homem, com forte sotaque carioca, dizia estar com a jovem e ameaçava tirar a vida dela.
Teve início então todo um trabalho de “negociação” e ligações paralelas para saber sobre o paradeiro da menina.

Durante longos cinco minutos, a mãe se manteve ao telefone seguindo as orientações do suposto sequestrador que, no começo, arbitrou um resgate no valor de R$ 10 mil. “Moço, eu sou pobre, eu não tenho esse dinheiro não”, a mãe se justificava enquanto o homem do outro lado da linha não economizava palavras de baixo calão e gritos ameaçadores.
“Quanto que a senhora acha que consegue levantar pra mim?”, ele perguntava. “Dois mil!”, respondeu Denise. “A senhora então vai ter que me prometer que não vai chamar a polícia”, argumentava o bandido. “Eu quero falar com a minha filha”, pediu a mãe. Nesse instante, uma voz feminina pedia que a mãe desse um jeito de pagar o resgate e que ela mantivesse a calma para resolver tudo.
“‘Cumpádi’. A partir de agora tu me chama de ‘cumpádi’”, orientou o bandido forçando Denise a procurar um mototáxi e seguir com o telefonema em linha. A frieza do homem ao telefone era tanta que ele chegou a repassar uma “lição de vida”: “um passo de cada vez, na vida eu aprendi assim. A gente sobe degrau de um em um, senão cai”, afirmou.

Quando a amiga que a acompanhava conseguiu constatar que Letícia, a filha de Denise, estava fora de perigo, já que o pai teria conseguido falar com ela, veio o choque. A vítima do trote desmaiou. Na calçada em frente ao jornal onde tudo se passou, Denise não segurou o susto e despencou.
Durante pelo menos 20 minutos ela permaneceu desacordada até a chegada de equipe do Corpo de Bombeiros, acionada para os primeiros socorros. Dentes serrados, movimentos de convulsão. Ela foi encaminhada para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) das Moreninhas. No fim do dia, a reportagem buscou informações sobre o estado de saúde dela e foi informada pela amiga, que a acompanhou até o atendimento, que Denise estava em estado de choque e não reconhecia as pessoas.
“O médico disse que isso é comum quando se passa por um susto como o que ela passou, mas que ela vai voltar aos poucos”, afirmou Tânia, amiga de Denise.
Dois dias depois do ocorrido, a própria Denise conversou com a reportagem e relembrou os momentos difíceis que passou. A vítima disse que já tinha passado por situações parecidas com outros telefonemas e que havia descartado qualquer possibilidade, mas que desta vez foi diferente. O bandido mencionou o nome das filhas e até mesmo do neto que estava em casa. “Eu entrei em desespero. Ele falou que tinha pegado minha filha no Centro e ela realmente tinha acabado de ir para lá. Depois que tudo passou, tive amnésia. No hospital, tive de passar a noite. Não lembrava quem era meu marido, minha filha, nem o que tinha acontecido, mas no dia seguinte fui voltando ao normal”, afirmou Denise que agora vai passar por uma bateria de exames para saber detalhes sobre a crise nervosa.
MS não tem sequestros desse tipo, diz delegado
Para o delegado Fabiano Nagata, titular do 1º Distrito Policial de Campo Grande, esse tipo de trote é mais comum do que se pensa, mas as pessoas precisam manter a calma diante de telefonemas desse tipo para não acabar cedendo e depositando a quantia pedida pelos falsos sequestradores e também para não haver o que houve com Denise, que acabou passando mal por causa do susto.
“Eles saem ligando para várias pessoas. Como tem sempre alguém que cai e deposita o dinheiro, eles continuam. A gente instrui, mas ainda tem muita gente que cai, principalmente idosos ou pessoas sem muita instrução”, explicou o delegado. “Eles desestruturam a vítima emocionalmente. Gritam, falam rápido, inventam situações, é complicado mesmo”, afirmou.
Observar o código de área do telefonema que chega pelo celular também é uma coisa que precisa ser feita já que, normalmente as ligações vêm de fora. Outra coisa importante é buscar informações sobre o paradeiro da suposta pessoa sequestrada o quanto antes. Ele ressalta ainda que, em Mato Grosso do Sul, não há casos de sequestro desse tipo, em que o bandido liga para pedir resgate. “Isso é coisa dos grandes centros como São Paulo, Rio de Janeiro, aqui não tem isso. O que temos aqui são os sequestros relâmpagos em que as vítimas são levadas a sacar dinheiro e liberadas em seguida”, explicou o delegado.