Em pregação, pastor condena gays e pede voto anti-Kalil

Legislação eleitoral veda propaganda eleitoral em igrejas e templos

O Tempo

Em pregação, pastor condena gays e pede voto anti-Kalil

Um vídeo do missionário Almir Alves dos Santos dizendo que não votaria no candidato do PHS à Prefeitura de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, afirmando que o empresário não é cristão, e que é a favor dos gays e  anticristo causou polêmica ontem nas redes sociais. O religioso realiza o discurso em um local que se assemelha a uma igreja - com altar, púlpito, banners com frases evangélicas, além de uma banda. Conforme a legislação eleitoral, essa prática é proibida.

O missionário começa o discurso dizendo que "se eu fosse pela lógica, votaria em Kalil" ao invés de João Leite (PSDB). Em seguida, ele diz que, quando examina o cenário, a primeira coisa que analisa é que o empresário (Alexandre Kalil) não é cristão e é a favor da ideologia de gênero: “Eu não quero o meu filho de cinco anos, e nem a minha filha de oito anos, compartilhando o banheiro com menino e com menina. Eu não quero. E ele vai fazer isso nas nossas escolas. (...) Ele é favor do homossexualismo (sic), e todo aquele que é a favor do homossexualismo (sic) é anticristo. Eu amo o homossexual, mas não amo seus atos, os seus atos são condenados pela Bíblia”.



Ainda no vídeo, o religioso, que neste ano tentou (e não conseguiu) uma vaga na Câmara Municipal pelo PP _ partido que faz parte da coligação do candidato tucano _, conclama os fiéis a orarem contra a eleição de Kalil:  “Tem um monstro aí fora, chamado Kalil, que está crescendo todos os dias. (….) Se nós não abrirmos os nossos olhos, não dobrarmos os nossos joelhos e começar a orar, ele vai ganhar as eleições. E aí o negócio vai ficar cruel para as igrejas porque ele é contra o povo de Deus”, disse.

Em conversa com O TEMPO, Almir Alves dos Santos, que trabalha com a recuperação de dependentes químicos, negou que estivesse em uma igreja pregando para fiéis. Segundo ele, as falas ocorreram uma semana após o primeiro turno das eleições (2 de outubro), em um  salão no bairro Piratininga, em Venda Nova. O missionário afirmou que o local é adaptado para palestras e aniversários, e que foi alugado por “pessoas que trabalharam nessa área (de prevenção às drogas)”. Ele ainda conta que foi surpreendido no dia para palestrar sobre o tema para uma plateia formada por dependentes químicos, familiares desses usuários e pessoas que apoiam o trabalho terapêutico.

“Eu estava falando com um grupo de pessoas que apoiam o tratamento da comunidade terapêutica e lá me perguntaram em quem eu ia votar. Por isso que eu entrei com aquela fala. A maldade é tanta que eles só pegaram a hora que eu falo da parte de votar, a parte que eu estou decifrando o negócio, eles não falam. O testemunho, a hora que eu falo como eu saí das drogas, eles não colocaram. É uma maldade”, disse Santos, completando que vai processar quem o expôs assim, já que sua fala durou 1 hora e 20 minutos, e foi reduzida por “covardia” para menos de três minutos.

Conforme o Tribunal Regional Eleitoral de Minas (TRE-MG), o artigo 37 da Lei 9.504, de 1997, veda qualquer tipo de propaganda “em bens cujo uso dependa de cessão ou permissão do poder público, ou que a ele pertençam, e nos bens de uso comum, classificação na qual se encaixam os templos religiosos”. Porém, o órgão ressalta que o “enquadramento de um caso concreto nessa vedação da lei vai depender da análise de um juiz eleitoral, diante de informações e provas”.

Gêneros. Questionado sobre quando ele havia presenciado Kalil afirmar que era a favor da ideologia de gênero, o missionário disse que nunca ouviu isso do candidato. “Esses são comentários que já peguei de pessoas falando e aí incrementei na minha fala. Eu mesmo não vi, não sei, nem mesmo conheço o Kalil. Só sei que ele foi presidente do Atlético, nem sei quem é”, explicou.

Santos também disse que não pertence a nenhuma igreja e que faz um trabalho à parte como missionário desde 1998: “Frequento Igreja Batista da Lagoinha, Assembleia de Deus, Maanaim. Onde me chamam eu estou indo. Sou de Jesus”.

Repercussão. Alexandre Kalil criticou a postura do missionário: “Um homem de Deus falando mentira, o que você vai falar? Isso é um pseudohomem de Deus falando mentira. Eu sou a favor da criança sair lendo e escrevendo da escola. Isso é que eu sou a favor. Eu não entro nesse tipo de coisa porque eu peço muito a Deus para iluminar meu coração”. Já a coligação Juntos Por BH, que representa o candidato João Leite, afirmou que não comenta posicionamentos de natureza pessoal.

Na avaliação de Anderson Cunha Santos, presidente de honra do Cellos, entidade que luta pelos direitos da comunidade LGBT, o religioso não colocou em questão os planos de governo dos candidatos e elencou um elemento (banheiros comuns) para tentar dizer que isso é crucial para escolher em quem votar. “É um desserviço à democracia, uma reafirmação desse discurso de ódio e de intolerância, e uma atitude de desinformar a população, que não sabe qual a discussão correta de ideologia de gênero e do respeito às diferenças nas escolas”, explicou.

O pastor. Jorge Linhares, que é presidente do Conselho de Pastores de Minas, disse que o órgão que representa as igrejas evangélicas do Estado não escolhe e nem desonra a imagem de qualquer candidato à prefeitura, e nem apoia “quem, porventura, tenha feito declarações difamatórias”. Ainda segundo a nota, como líderes cristãos, eles optam “apenas por sugerir candidatos, sem ofender e sem macular o nome de qualquer deles”.
“Portanto, qualquer pessoa que falar em nome das igrejas evangélicas, emitindo comentários contra ou a favor de qualquer candidato, estará cometendo um equívoco. Nosso objetivo é ouvir as propostas, e, sem bairrismo e sem agressões, seguir a orientação de Deus na hora do voto, pois política foi e sempre será coisa séria”, afirmou Linhares.