Crimes mudam rotina de distrito mineiro

Assustadas com as misteriosas mortes de duas mulheres, moradoras têm evitado sair sozinhas 

O Tempo

OURO PRETO. “Deu sete horas da noite, as ruas ficam um deserto, todo mundo apreensivo e em alerta”, conta a aposentada Ermínia de Oliveira, 76. Ela se refere ao medo vivido nos últimos dias pelos moradores do distrito de Antônio Pereira, em Ouro Preto, na região Central de Minas, onde reside. O clima de tensão, que se percebe logo que se chega à localidade, tem sido frequente desde que os corpos de duas mulheres, que estavam desaparecidas, foram encontrados: um na manhã de domingo e outro na segunda-feira.
A Polícia Civil investiga se elas foram assassinadas pela mesma pessoa, já que os corpos foram encontrados na região da gruta da Lapa e apresentavam ferimentos parecidos. Os crimes interrompem a tranquilidade do distrito, que tem pouco mais de 3.500 habitantes e que havia registrado seu último homicídio em 2014, conforme a corporação.
Enquanto os investigadores não esclarecem as mortes, os moradoras da cidade vivem com medo. Muitos até mudaram a rotina. “A aula acaba, a gente busca as crianças e vai direto para casa. Não deixa elas na rua à noite”, conta a dona de casa Ana Pereira da Silva, 36. “Nós, mulheres, não andamos mais sozinhas nem vamos às missas da noite. E olha que a igreja é perto. Para ir ao posto de saúde, só com companhia”, completou Rosiane de Oliveira, 45.
Desaparecidas
O mistério sobre as mortes das mulheres começou em 12 de outubro, quando Ingred Michelle Rosa, 34, que seria uma garota de programa e era conhecida como Raquel, foi vista pela última vez. “Não dá para dizer o que aconteceu. Ela foi vista no forró e, depois, sumiu. Era muito conhecida e respeitada, pois criava os filhos com dignidade”, afirmou um amigo dela, que pediu anonimato.
No sábado, quando a polícia e moradores da região ainda procuravam Ingred, a zeladora do santuário de Nossa Senhora da Lapa, Caetana Aparecida Felipe Melchiades, 47, também sumiu, após fechar o templo, às 17h.
O corpo de Ingred foi encontrado no domingo enterrado em uma cova rasa, no final de uma trilha na rua da Lapa. De acordo com as testemunhas que encontraram a vítima, ela estava nua e machucada, e seus pertences estavam próximo ao corpo.
Segundo a Polícia Civil, no dia seguinte, agentes investigavam a primeira morte quando encontraram o corpo de Caetana. Ele estava em uma trilha mata adentro, a cerca de 4 km da gruta da Lapa, e tinha ferimentos parecidos com os encontrados em Ingred.
Policiamento
A Polícia Militar informou que, desde que as mulheres desapareceram, a vigilância no distrito foi reforçada. Anteontem, moradores protestaram na rodovia por mais rondas policiais e segurança.
Saiba mais
Fechado. Desde que a zeladora do santuário de Nossa Senhora da Lapa sumiu, a gruta, que recebe visita de centenas de turistas por semana, foi fechada para visitação de turistas e para eventos. Um cartaz no portão avisa que o local está sendo aberto apenas para as missas de domingo.
Sozinha. De acordo com os moradores do distrito de Antônio Pereira, Caetana costumava ficar sozinha na gruta, mesmo à noite. Apesar de ter energia elétrica, não há postes de iluminação próximo à gruta. “Aqui fica uma escuridão imensa à noite”, disse um morador.
Homem foi conduzido, mas acabou liberado
Responsável por investigar os assassinatos das duas mulheres, o delegado regional de Ouro Preto, Rodrigo Bustamante, confirmou ontem que um homem de 26 anos chegou a ser conduzido à delegacia, anteontem, após ser apontado como alguém que estaria envolvido em um dos homicídios. No entanto, ele foi solto por falta de provas e por já ter expirado o período de flagrante.
“Ele foi ouvido, e foi coletado material genético para comparação com o DNA colhido nas vítimas, mas somente após o resultado do laudo médico poderemos dizer se ele é suspeito ou não”, disse o delegado. Segundo Bustamante, dez pessoas, incluindo familiares das vítimas, já foram ouvidas nos inquéritos.
Segundo a Polícia Militar, o homem detido tinha arranhões pelo corpo e deu versões contraditórias sobre onde estaria nos dias dos crimes. O exame que pode comprovar o envolvimento dele nos assassinatos só deve ficar pronto em 30 dias. Ao delegado, ele disse que já foi preso por estupro.
Família quer desvendar mistério
Se os moradores do distrito de Antônio Pereira, na região Central de Minas, estão apreensivos, a família de Caetana Aparecida está ansiosa pelo resultado das investigações. Ontem, agentes da Polícia Civil estiveram mais uma vez na casa da aposentada Raimunda da Silva, 83, mãe da zeladora.
“Eu estava esperando ela para jantar. Deu cinco horas da tarde, e nada dela aparecer, e eu comecei a ficar preocupada. Quando foi à noite, o padre veio aqui atrás dela. É tudo um mistério, né?”, afirmou a aposentada, que agora cuidará dos quatro netos, duas moças, de 17 e 19 anos, e dois rapazes, de 22 e 25. O pai dos garotos morreu vítima de uma doença há cerca de três anos.
Desde sábado, uma das irmãs de Caetana, que mora em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte, tem passado os dias em Antônio Pereira. “Estamos intrigados com tudo, com o jeito que tudo aconteceu, principalmente como ela foi retirada lá de cima (da gruta). Ninguém sabe, ninguém viu. A estrada é estreita, passam, no máximo, duas pessoas”, contou Maria do Rosário, 42.
As irmãs também contaram que com Caetana foram encontrados o dinheiro da oferta da gruta e a bolsa dela. “Eles não levaram nada”, comentou Maria.
A família lamentou não ter conseguido velar o corpo de Caetana. “A gente teve que imprimir uma foto dela para colocar em cima do caixão no enterro”, disse Lourdes da Silva, 45, outra irmã da zeladora.
Vaga
Lourdes contou que, desde que a irmã saiu da gruta, o local está sem zeladora. “Vai ser difícil, agora, encontrar alguém que tope esse trabalho”, acredita. No próximo domingo, os moradores do distrito vão celebrar uma missa de sétimo dia na capela de Nossa Senhora da Lapa.