A tradutora Gilda Garcia tem sete cartões de crédito na carteira. E não quer abrir mão de nenhum deles. Já a decoradora Márcia Ferreira tem cinco. Aqueles com limite maior, ela utiliza para comprar passagens de avião e materiais de construção para a reforma da casa. Os demais são utilizados no dia a dia.
Gilda e Márcia fazem parte de um grupo que deve levar o setor de cartões a movimentar aproximadamente R$ 1,138 trilhão neste ano, se confirmada a projeção de expansão de 7% ante 2015.
A despeito da crise, somente no primeiro semestre de 2016, os brasileiros movimentaram R$ 546 bilhões com cartões de crédito e débito no país e no exterior, crescimento de 7,2% em relação aos seis primeiros meses de 2015.
Os cartões de crédito registraram R$ 337 bilhões (aumento de 3,8%), enquanto os cartões de débito, R$ 209 bilhões (13%).
Contabilizando apenas as transações feitas no Brasil, a cifra alcançou R$ 544 bilhões entre janeiro e junho deste ano, aumento de 8,3 % ante o primeiro semestre de 2015. Os números, de fazer inveja em qualquer segmento da economia, são da Associação das Empresas de Cartões e Serviços (Abecs).
Parcelamento
Em um cenário de escalada dos índices de desempreg[/TEXTO]o, queda da renda e persistência da inflação, as compras parceladas em três, seis ou até 10 vezes sem juros no cartão são uma tentação para os usuários.

“Por meio do parcelamento sem juros, os emissores dos cartões concederam aos brasileiros a quantia de R$ 163 bilhões, o que representou 53% do volume de crédito concedido à pessoa física para financiar o consumo de bens e serviços”, diz o diretor-executivo da Abecs, Ricardo Vieira.
Pesquisa da entidade em parceria com o instituto Datafolha aponta que 62% dos consumidores fazem uso do pagamento parcelado sem juros todo mês. Mas a praticidade de se carregar crédito na carteira pode virar pesadelo.
“O problema é que, empolgados com a facilidade de financiamento, muitas pessoas gastam mais do que podem. Confundem-se e, sem fazer contas, acumulam parcelas que individualmente caberiam no orçamento, mas quando somadas estouram a conta”, alerta o professor universitário e consultor de finanças pessoais, Paulo Vieira.
Foi o que aconteceu com a Gilda. “Compro sapato, roupa, bolsa e faço supermercado sempre usando a modalidade de parcelamento. Já me enrolei toda por conta disso e acabei tendo que pegar um empréstimo pessoal para quitar a dívida com o cartão”, conta ela, que mesmo após a experiência ruim mantém a coleção de cartões.
Assim como a tradutora, os brasileiros têm recorrido mais ao dinheiro de plástico para pagar itens do dia a dia. Os pagamentos com cartões representaram 28,5% do consumo das famílias no primeiro semestre do ano, contra 27,5% no mesmo período de 2015.
Arte cartão

Dívida de R$ 1 mil pode chegar a R$ 1 milhão em 4 anos
Atualmente, os juros praticados no rotativo do cartão, cobrado quando a fatura é atrasada ou quando o consumidor paga o mínimo, estão em 475% ao ano, de acordo com as médias de taxas de juros divulgadas pelo Banco Central.
Com taxas estratosféricas, as parcelas pendentes no cartão de crédito já são citadas por 62% dos consumidores com alguma dívida em atraso.

Pesquisa nacional realizada apenas com inadimplentes pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) aponta ainda que as compras feitas no cartão de loja foram responsáveis por incluir o nome de 73% desse usuários no cadastro de devedores.
“É preciso muita cautela para usar o cartão, pois os juros são exorbitantes e a pessoa pode se complicar. Para se ter uma ideia, o consumidor que estiver com uma dívida de R$ 1 mil pendente agora, em um ano terá uma conta de mais de R$ 5 mil para pagar. Em dois, a dívida subirá para R$ 33 mil, e em três anos será de aproximadamente 190 mil. Em quatro, a dívida já estará em R$ 1 milhão”, adverte a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti.
Segundo ela, no atual momento de incertezas na economia, é importante que os consumidores sejam conservadores e pensem muito bem na hora de contrair novas dívidas.