Voos subsidiados pelo Estado têm ocupação de apenas 20%

Casal viajou sozinho para Ubá e pagou R$ 600; Governo bancou os outros R$ 1.188,21 dos custos

O Tempo

O casal de médicos Ricardo Andrade Pinto e Ana Ester Nogueira Pinto trocaram cerca de quatro horas de estrada de Belo Horizonte a Ubá, na Zona da Mata mineira, por 37 minutos de avião. “Foi uma experiência muito boa, e pretendemos adotar. É um ótimo produto, que precisa ser divulgado para criar demanda”, destaca o casal, que mora na capital e foi visitar a família. Os dois eram os únicos passageiros dessa viagem, que faz parte do programa de integração regional, com voos subsidiados pela Companhia de Desenvolvimento Econômico do Estado de Minas Gerais (Codemig) para 12 cidades do interior, com passagens ao preço médio de R$ 300. A ideia é que o programa se sustente com a venda das passagens, mas, nos dez primeiros dias, a taxa de ocupação foi de 20%.
Pelo contrato, cada hora de voo custa R$ 2.900, e cada minuto sai por R$ 48,33. O casal pagou R$ 600 pelas passagens. Já a Codemig desembolsou R$ 1.188,21 para bancar os 37 minutos dessa viagem. Em alguns casos, o avião chegou a sair vazio de Belo Horizonte para buscar apenas um passageiro no interior.
De acordo com informações do tráfego passadas pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), no dia 17 de agosto, um avião saiu do aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, para Juiz de Fora, sem nenhum passageiro. São 46 minutos de viagem, ao custo de R$ 2.223,18. Buscou uma única pessoa, com despesas de mais R$ 2.223,18. A Codemig gastou R$ 4.446,36 para buscar um passageiro, que pagou entre R$ 450 e R$ 500. Ou seja, a companhia bancou 88% do custo.

O professor de economia do Ibmec Felipe Leroy afirma que, se funcionasse, a ideia de gerar uma operação autossustentável – onde os vouchers vendidos custeassem a operação – seria ótima. Entretanto, ele questiona o desperdício de recursos, num momento em que, segundo ele, o governo do Estado não tem dinheiro sequer para pagar os salários dos servidores em dia. “O papel da Codemig é gerar desenvolvimento, mas não se gera desenvolvimento colocando nove pessoas em um avião e mandando para cidades tão próximas de Belo Horizonte. A demanda é baixa, e basta observar o perfil de quem está viajando”, analisa.
O casal de engenheiros Lenice e João Guilherme Pitangui pagaram R$ 200 cada para ir de Belo Horizonte a Curvelo, onde têm uma fazenda. Eles também eram os únicos na aeronave. “A estrada é muito congestionada. Eu acho que vai ter muita procura e vai ser bom para quem tem que ir trabalhar. E ainda pode parcelar o pagamento”, destaca João Guilherme. O custo do trecho, de 22 minutos, é de R$ 1.063,26. O casal pagou R$ 400, e a Codemig completou os R$ 663,26.
Nos dez primeiros dias do programa estavam previstas 240 operações. Segundo a Infraero, saíram em torno de 54, com cerca de cem passageiros – uma média de 1,8 passageiro por voo, equivalente a 20% dos nove assentos. Segundo a professora de ciências aeronáuticas da Fumec Ketnes Costa, uma taxa de ocupação considerada rentável gira em torno de 60%. “Para bancar os custos da operação, cada voo tinha que levar pelo menos cinco passageiros. Não está compensando, pois está saindo muito dinheiro para pouca demanda”, diz.

A Codemig tem um contrato mensal de no mínimo 300 horas de voo com a Two Táxi Aéreo, que venceu a licitação. São R$ 870 mil por mês e R$ 10,44 milhões por ano. A assessoria de imprensa explica que, se não for vendido nenhum voucher, em vez de R$ 2.900, a companhia paga só o custo fixo de R$ 1.595. “Se não houver demanda, a Codemig poderá redirecionar os voos para onde houver necessidade”.

Sem operar, Flyways pode perder slots

Há mais de dois meses sem operar, a Flyways solicitou à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) sete novos voos do aeroporto da Pampulha para Uberaba e Uberlândia, no Triângulo, e para o Rio de Janeiro. Se não voltar a voar, a companhia corre o risco de perder seus slots. A empresa terá que explicar à Anac porque não tem cumprido seus horários de transporte de voo (hotran) vigentes.
A reportagem tentou contato com a companhia, mas os telefones informados no site, tanto o de vendas de passagens como o de atendimento ao consumidor, não atenderam. (QA)