Um mês após a chegada da vacina contra a dengue em Belo Horizonte, as vendas ainda não alcançaram a maior parte da população. O preço elevado é o principal entrave para buscar a proteção, comercializada para as clínicas particulares por até R$ 138. Porém, com os encargos, o preço cobrado do consumidor varia de R$ 235 a R$ 290. Como são necessárias três doses para a eficácia da imunização, o valor final pode chegar a quase R$ 900. 
O Hoje em Dia entrou em contato com dez clínicas e laboratórios que aplicam a vacina na capital. Seis informaram que a procura foi abaixo do esperado. Um relatou ter vendido metade do estoque adquirido até o momento. Outro não detalhou quantas aplicações foram feitas, mas os agendamentos começaram só há uma semana, e apenas dois garantiram que a demanda superou as expectativas. 
O custo leva em conta impostos, condições de armazenamento e transporte do produto, além de mão de obra especializada, explica a médica Marilene Lucinda, responsável pelo setor de vacinas do grupo Hermes Pardini.
“A população vai pesquisar mais sobre a vacina assim que os casos aumentarem” (Raquel Pitchon, médica)
Ela afirma que das mil doses compradas pelo laboratório, apenas 80 foram aplicadas. “Na última semana tivemos um aumento significativo na procura, mas esperávamos que o número de interessados fosse maior”. E completa: “é uma vacina nova, e todo medicamento nessa situação leva um período até que a população identifique que a proteção é eficaz e segura. Imagino que as pessoas estejam aguardando casos de outros conhecidos que se imunizaram”.
A médica acredita que a baixa incidência de casos de dengue no inverno é outro motivo para que a população não esteja interessada em se vacinar. “Acho que vão procurar mais para o fim do ano, em novembro ou dezembro, quando há chances de epidemia”, diz.
A necessidade de agendamento prévio é outro fator que trava as vendas do produto. Cada frasco é composto por cinco doses que devem ser administradas dentro de um período de seis horas. A médica Ana Lúcia Mateus Duro, responsável pela Protege Vacinas, conta que essa é uma grande dificuldade.
“Não estamos conseguindo juntar nem cinco clientes. Temos 15 pacientes na lista de espera para tomar a vacina, mas os horários nunca batem”.
Cada uma das 25 doses oferecidas pela clínica está sendo vendida a R$ 270. Ana Lúcia diz que a procura até é significativa, mas que o valor assusta os pacientes. “Tem cliente que quer vacinar a família. Se são três pessoas numa casa, já vai ser um custo alto. São vacinas importadas e cada pessoa tem que tomar três doses para estar completamente imunizada. Tem gente que vai precisar juntar dinheiro. Acho que está todo mundo perdido e c</CW>om medo de tomar”.
Já a médica Raquel Pitchon, que oferece o serviço na clínica dela, diz que o primeiro mês de vendas do produto foi positivo, na contramão dos demais estabelecimentos. Ela afirma que a procura está alta e conta que já está aplicando o segundo lote da proteção.
Vacina contra a dengue
“Não estava nem sabendo da vacina. O custo é muito alto, não tenho condições de gastar R$ 200 com isso. Mas se fosse pelo SUS eu tomaria” (Paulo Barbosa, de 32 anos)
Período atípico é a melhor época para se proteger contra a doença, recomendam médicos
O verão é a época do ano em que ocorre a maior parte dos surtos de dengue em todo o país. Apesar de a doença ter grande incidência de dezembro a março, o momento ideal para se proteger é agora, durante o inverno.
De acordo com o presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, Carlos Starling, é importante tomar a primeira dose nesses meses para “entrar no verão do próximo ano já com um bom nível de proteção”. Como o medicamento é administrado em três doses, que devem ser tomadas em um intervalo de seis meses entre cada uma, quem se vacinar agora estará completamente protegido em setembro de 2017. 
Starling destaca que, além das ações para evitar a proliferação do mosquito Aedes aegypti, a vacina é o principal modo de se prevenir contra a dengue. “Para os tipos de vírus que estão circulando agora, ela é muito eficaz, garantindo 93% de prevenção contra as formas graves da doença. O nível de proteção é semelhante ao da imunização contra a gripe”, explica.
Vacina contra a dengue
“Tive dengue e o que passei naqueles sete dias foi terrível. Perdi muito tempo de cama. Por isso, pensaria em guardar dinheiro para tomar a vacina” (Ivana Marcolino, de 28 anos)
Há uma vacina brasileira em fase de produção no Instituto Butantã, órgão ligado ao governo de São Paulo, mas, para Luiz Wellington, professor de infectologia da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, quem já tem condições de pagar pela imunização deve recorrer à medida imediatamente. “Nós não sabemos se até a próxima epidemia a vacina brasileira já estará em fase de comercialização ou se a que já está no mercado estará mais barata. Então, é melhor prevenir agora”. 
Wellington argumenta que o Ministério da Saúde deveria oferecer o serviço gratuitamente, especialmente para pessoas de baixa renda. Porém, como a pasta afirma que não há previsão de disponibilizar a vacina pelo Serviço Único de Saúde (SUS), o infectologista recomenda a aplicação da que está sendo vendida. “Aqueles que têm condição de pagar devem tomar, especialmente quem mora em regiões de risco”, reforça.
vacina contra a dengue