À frente do comando do policiamento de Belo Horizonte há nove meses, o coronel Winston Coelho Costa tem um grande desafio pela frente: combater os crimes violentos contra o patrimônio, em especial as ocorrências de roubo. Os dados mais recentes divulgados pelo governo mostram que esse tipo de crime aumentou 19% nos sete primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. Entre janeiro e julho, foram registrados na capital 27.840 crimes contra o patrimônio, contra 23.401 em 2015.

Para conseguir a redução, que segundo o comandante já tem sido alcançada gradualmente, o chefe do policiamento em BH espera mais participação da administração e da sociedade organizada. O ponto de vista defendido por ele é que a segurança pública deve ser preocupação de todos e não apenas da Polícia Militar.

O coronel ainda critica a falta de uma prioridade comum entre os próprios órgãos de segurança, que dificulta o alcance de melhores resultados. Confira a entrevista completa.

Quais as particularidades da capital no que diz respeito aos desafios e dificuldades encontradas?

A maior dificuldade que a gente vê é que todos falam de segurança, mas nem todos têm uma vertente de atendimento às demandas da segurança. Um exemplo que a gente tem é a iluminação pública, que interfere sim no ambiente, na possibilidade do acontecimento do crime. A não ação social por parte do município, a contento, é um outro exemplo que gera o morador de rua e as pessoas com problemas psiquiátricos.

Eu não posso ficar achando que é normal eu ter aqui na Praça Rio Branco cinco pessoas com uma bolsa com cinco, seis celulares e tudo mais e elas permanecerem ali a tarde toda. Não, essas pessoas têm que ser incomodadas e abordadas

Quando diz a não ação social quer dizer falta de política pública neste sentido?

Falta de políticas públicas neste sentido que sejam consistentes. A política até existe, mas ela não atende a demanda que a gente possui. Então isso tudo provoca uma desorganização, e ela permite a proliferação do crime. 

E o contingente hoje permite uma ação efetiva, levando em conta esses problemas?

Permite. O meu efetivo é o suficiente? Não, ele não é o suficiente. Mas o quanto seria suficiente? Segurança pública é caro, a manutenção da segurança pública é cara. Mas eu não tenho tido por parte do ente que me paga, do Estado, uma postura de quem não vai atender às minhas demandas. 

 

Qual o efetivo?

Hoje nós estamos com 4.700 policiais em Belo Horizonte, com uma população de cerca de 2,5 milhões.

Qual seria o ideal?

Todas as referências que a gente tem é de país de primeiro mundo, uma relação população com policial, e com crime baixo. Se esses 4.700 estivessem em outro país, eu teria excedente numa cidade de 2,5 milhões de pessoas. Mas aqui em Belo Horizonte, em face da quantidade de crime, do próprio estado brasileiro, da legislação que se apresenta... Hoje eu estou atingindo um patamar de reincidência de 30%, é muito alto.

Para resolver a questão da reincidência, é só através da mudança da lei, não tem outro caminho, já que nossos presídios não recuperam

Isso é de algum crime específico? Furto e roubo?

Furto e roubo, crimes contra o patrimônio no geral, o percentual é de 30% de reincidência. Aí vem um outro fator, de motivação do meu policial. Se a pessoa estiver praticando crime, prende de novo porque a sociedade espera isso do policial. Se ele desanimar, aí a sociedade estará realmente a ver navios.

Hoje o principal problema de Belo Horizonte é o crime contra o patrimônio?

É o crime contra o patrimônio. O crime contra a pessoa, lógico que a gente está lidando com vidas e cada uma que se perde é sim um problema de estado que deve ser estudado, mas o crime contra o patrimônio é o que mais incomoda a sociedade belo-horizontina hoje.

Para esse trabalho ainda falta integração até entre os órgãos da segurança?

Eu acho que falta mais o estabelecimento de prioridades. A boa relação existe, mas muitas vezes você vai buscar e a prioridade não é essa, a prioridade é outra. Falta ter uma prioridade comum para se atingir um sucesso grande.

E como está hoje a relação com a Polícia Civil?

A gente tem, com a atual chefia, essa promessa de atuar mais integrado. Te confesso que teve um tempo que isso distanciou um pouquinho, tanto que eu estava com um tempo alto de espera nas delegacias. Não sei se esse modelo é o ideal, mas também não vou entrar nessa questão. Todos os serviços do mundo estão sendo descentralizados e a Polícia Civil resolveu centralizar o serviço dela de atendimento em determinados locais, sob a promessa que teria investimentos, que teria várias equipes e tudo mais, e isso acabou não acontecendo. Mas essa é uma promessa do atual chefe do departamento, prioritária, de resolver essa questão das Ceflans (Centrais de Flagrante), ele assumiu tem poucos dias, mas é uma pessoa que, por onde passou, teve boas relações com todos os comandantes da Polícia Militar. Acredito que aqui não vai ser diferente.

60% das ocorrências feitas pela PM hoje são de menor potencial ofensivo. Então nos daria uma autonomia e nos traria um conforto poder fazer o TCO e ainda permitiria que a Polícia Civil envidasse esforços realmente nas investigações dos crimes de maior potencial ofensivo

Como funcionaria isso? Todas as delegacias receberiam todas as ocorrências?

Eu não gostaria de entrar nessa seara porque cabe à Polícia Civil cuidar disso e aí a gente pode trazer um certo desconforto em cima da estratégia institucional.

Voltando então na questão da descentralização, como o senhor avalia a possibilidade de a PM fazer o Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO)?

Isso se discute atualmente, nós já temos estados, como Santa Catarina, que fazem o Termo Circunstanciado de Ocorrência e têm acesso à agenda do Ministério Público ou dos Juizados Especiais. O nosso registro já é praticamente um TCO, ele já está digitalizado, possui diversos campos que identificam muito bem as pessoas, que tem condições de trazer dados qualificados para aquele que vai recepcionar.

Depende do que?

De uma tratativa entre as instituições e o Tribunal de Justiça entender que isso pode ser feito aqui em Minas Gerais.

 

Quando se fala em segurança pública, muito se discute o tratamento à questão das drogas. Especialistas e alguns políticos defendem a descriminalização do uso de algumas drogas. Qual o posicionamento do senhor sobre esse assunto?

Eu sou completamente contra a descriminalização das drogas porque considero que o nosso país não tem estrutura para suportar isso. Se hoje, com a droga sendo criminalizada, a gente já vê ostensivamente em alguns pontos o consumo, o tráfico, a partir do momento que eu liberar, eu acho que o país não vai ficar numa situação boa. 

É preciso obter um entendimento agregado, de forma que a segurança tenha uma certa prioridade no atendimento das demandas

A questão do parcelamento dos salários chegou a afetar em algum momento a tropa?

Gera sim um desconforto, mas até agora tem o efetivo entendido que realmente é em face da situação financeira do Estado. A gente torce para isso se resolver o quanto antes, todos nós pagamos as nossas contas, então retornar o nosso pagamento para o quinto dia útil se torna importante hoje para que a gente mantenha a motivação. Mas isso tem sido tratado em nível de comando com o governo do Estado e eu acredito que, em breve, nós teremos notícias melhores.