Repleto de 'pokéstops', Cemitério do Bonfim em BH é tomado por jogadores

Por conta do grande acervo artístico, a necrópole mais antiga de Belo Horizonte conta com cerca de 30 pontos de parada e vem atraindo fãs do Pokémon Go


O Tempo

Um grupo de jovens andando, rindo e se divertindo com os celulares nas mãos pode ser uma cena mais que normal em tempos da febre do jogo Pokémon Go. Mas, talvez, a coisa fique um pouco estranha se o cenário de fundo for o Cemitério do Bonfim, na região Noroeste de Belo Horizonte. Com cerca de 30 “pokéstops”- pontos onde o jogador consegue repor os itens necessários na brincadeira -, a necrópole mais antiga da cidade, datada de 1897, vem recebendo cada vez mais pessoas em busca dos monstrinhos virtuais, de acordo com a Fundação de Parques Municipais (FPM).
Na manhã da última quarta-feira (9) a reportagem de O TEMPO esteve no local e encontrou um grupo de jovens jogadores que não quis conversar com a reportagem. Enquanto eles riam e brincavam, mostrando os pokémons que haviam acabado de pegar uns aos outros, na outra extremidade do cemitério, próximo à entrada principal, uma pessoa era velada por dezenas de familiares em luto. 
Um pouco mais a frente um casal passeava feliz pelo local, mas sem tirar os olhos de seus telefones. “Eu te explico o porquê de tantos pontos aqui. A Niantic, produtora do jogo, utilizou o banco de dados do Google e, para selecionar estes pontos, uma das exigências era priorizar questões artísticas da cidade. Por isso temos muitos grafitis e estátuas que são pokéstops. E como o cemitério do Bonfim possui um dos maiores acervos góticos, foram muitas as artes para servirem de pontos”, explica o rapaz, que não quis ser identificado.
O pequeno Thiago Máximo, de 13 anos, conseguiu encontrar vários pokémons raros no cemitério, como conta sua mãe Elisete de Oliveira, 53. "Ele que me falou que lá era um bom lugar, aí levei depois de pegar ele na escola. Achei legal isso do jogo, já que agora ele sabe o que é um cemitério. Graças a Deus nunca tinha ido em um antes", brincou a mãe do adolescente. 
Assim que notou a presença de um celular, o capineiro do cemitério Benedito Fernandes Vasconcelos, 58, perguntou à reportagem se estávamos a procura de pokémons. “Eu acho legal pra caramba, já vi um menino pegar uns dois aqui, a imagem é muito legal, o bichinho e o cemitério no fundo. Só que os meninos correm muito para pegar né”, completou.
Para ele, a presença destes pontos no interior do cemitério é uma coisa boa. “Traz pessoas que provavelmente nunca entraram aqui, então isso é legal.  Enquanto tiver a diversidade, a diversão, está bom. Não pode é ficar isolado num canto esperando sabe-se lá o quê. Aqui tem muita gente importante, tem o vice-presidente Silviano Brandão ali ó, aquele túmulo grandão e mais claro”, apontou o capineiro, orgulhoso do seu local de trabalho.
Assim como os funcionários do cemitério, a FPM também vê como interessante e positivo a iniciativa de incluir o cemitério no Pokémon Go. "Este fato reforça o peso cultural que o Cemitério do Bonfim tem para nossa cidade. Como o mais antigo da cidade, ele pode ser considerado um verdadeiro museu a céu aberto, abrigando túmulos de personagens históricos como Padre Eustáquio, o ex-presidente da República Olegário Maciel, ex-ministro da Marinha Raul Soares, Julia Kubitschek (mãe de Juscelino Kubitschek), o jornalista e escritor Roberto Drumond, entre outros", completou.
Ainda de acordo com a fundação, antes mesmo do jogo o cemitério já despertava a curiosidade e interesse de estudiosos, visitantes e comunidade em geral, contanto inclusive com o projeto “Visitas Guiadas ao Cemitério do Bonfim”, quando a cada 15 dias os participantes conhecem um pouco mais sobre aspectos arquitetônicos, históricos, culturais e artísticos da necrópole.
"O acervo histórico do cemitério é caracterizado por esculturas decorativas de túmulos e mausoléus, muitas dessas de autoria de escultores italianos que vieram para o Brasil em fins do século XIX. Em todo o Cemitério, podem ser observadas obras de arte de estilos diversos, desde a Belle Èpoque, o Art Deco, ao modernismo brasileiro", lembrou a FPM.
Por fim, o órgão aproveita para dizer que não vê qualquer problema na presença de jogadores, mas que é importante salientar as orientações para uso do espaço, "especialmente acerca do horário de funcionamento do cemitério (7h às 19h) e a proibição de subir nos túmulos ou danificar as estruturas das obras de artes dos jazigos".
Outros pontos
Além do cemitério, vários outros pontos históricos da cidade estão tomados pelos pontos relativos aos jogos. A praça da Liberdade, na região Centro-Sul de BH, vem sendo ocupada pelos treinadores pokémons até tarde da noite. Mesmo após a meia noite é possível encontrar dezenas de jogadores e, é claro, um reforço policial na região, já que diversas ocorrências de roubo de celulares envolvendo o aplicativo já foram registradas na capital.
Igrejas também acabaram usadas para dar vida às pokéstops e, também, aos ginásios, pontos onde os jogadores podem duelar com outros treinadores. Foi o caso da famosa Igreja de São Sebastião, localizada ao lado do Fórum Lafayette, no Barro Preto. Ainda na região, outro ginásio polêmico foi colocado no Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Autor de Ato Infracional (CIA-BH), na rua Rio Grande do Sul, para onde todos os adolescentes apreendidos são levados. O ginásio foi nomeado como "Catalisador", devido à escultura metálica existente sobre o prédio.
FOTO: REPRODUÇÃO/POKÉMON GO
cia-bh pokemon
A CIA-BH, para onde vão os menores apreendidos, é um ginásio pokémon
Para duelar, os jogadores precisam estar próximos dos pontos, o que pode levar a acumulação de grupos de jovens nestes locais. Recentemente, um hospital infantil de Curitiba afirmou que solicitaria a Niantic a retirada de um ginásio colocado no interior da unidade de saúde, o que estaria provocando problemas com os pacientes.
Procurada, a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) disse apenas que "não foi observada nenhuma alteração no movimento em torno da CIA-BH".