Hoje em Dia
 
De cada dez estudantes mineiros do último ano do ensino fundamental, dois já sofreram algum episódio de embriaguez na vida. Mais da metade dos meninos e meninas, de escolas públicas e privadas, já experimentaram bebida alcoólica. Os dados alarmantes fazem parte da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2015, divulgada ontem pelo IBGE. A dimensão do envolvimento de adolescentes com álcool fica cada vez mais evidente a partir do cruzamento desses dados com os registros da Vara da Infância e Juventude. Apenas em BH, pelo menos dois menores são encaminhados diariamente aos pais ou responsáveis pelo consumo de bebida alcoólica, sendo que muitos deles necessitam de atendimento médico.
De todas as situações passíveis de serem fiscalizadas pelos comissários do órgão, o álcool é o que mais demanda atendimento. E a percepção que se tem entre os profissionais é que o acesso dos menores às bebidas tem aumentado. “Mesmo nos estabelecimentos ou festas onde o consumo é proibido, como prevê a lei, os adolescentes encontram um jeito de beber. Mas o que chama a atenção é que, muitas vezes, há o consumo no meio dos adultos sem qualquer pudor”, afirma a coordenadora do comissariado da Vara da Infância e da Juventude de BH, Ângela Maria Xavier Muniz.
De janeiro a julho de 2016, 431 menores foram encaminhados aos pais por causa do consumo de bebida alcoólica
Mais do que apenas presenciar pacificamente essa situação, os adultos incentivam e facilitam o acesso dos menores ao álcool. “Amigos e parentes acabam intermediando. O que se percebe nos eventos e festas é que a bebida não é vendida ao adolescente, mas o adulto compra e repassa para ele, mesmo sabendo que o menor não tem condições de avaliar riscos e consequências”, explica a coordenadora.
A impossibilidade de projetar esses impactos fica evidenciada na postura dos adolescentes quando confrontados com o problema. Outro detalhe bem perceptível no relato dos estudantes é o fácil acesso que garantem ter a bebidas que vão desde a cerveja até vodca e uísque. Em um rápido giro pelas ruas da região hospitalar, em BH, a reportagem do Hoje em Dia conversou com adolescentes que assumem o hábito ilegal sem o menor constrangimento.
Segundo os jovens, o consumo começa, na maioria das vezes, por influência de familiares e conhecidos e pelo acesso facilitado, como aponta a pesquisa. O álcool, dizem os estudantes, é adquirido em supermercados, bares, festas e, em alguns casos, até nos encontros familiares.
Quando um estabelecimento comercial se nega a vender bebida, muitos pedem a ajuda de um adulto para comprar. “É bem tranquilo de se conseguir a bebida. Se proíbem, algum adulto vai lá e pega para a gente”, conta uma estudante de 15 anos que cursa o 9º período do ensino fundamental.
“O consumo de bebida alcoólica chega a ser até incentivado em algumas festas de família. O pessoal fala que é apenas para experimentar” (Estudante de 14 anos que cursa o ensino fundamental em uma escola de BH)

Solução para problemas passa por acompanhamento e diálogo
O cigarro e as drogas ilícitas também são outros problemas que permeiam o dia a dia dos estudantes. Segundo o levantamento do IBGE, 8,6% dos alunos do 9º ano de escolas públicas e privadas de Minas já experimentaram maconha ou outro tipo de entorpecente. Quase 20% dos adolescentes, com média de 14 anos, afirmaram que têm amigos que consomem drogas ilícitas.
Diante desse cenário, que reflete um problema social, a principal arma dos pais é o diálogo e acompanhamento constante dos filhos. “O mais importante nessa situação é marcar limites. Vivemos em uma sociedade que tem essa ilusão que se pode tudo, e a bebida e as drogas entram nessa percepção. Por isso, os pais devem ter essa consciência da responsabilidade e da importância do limite”, explica a psicanalista e professora especializada na área de toxicomania Tatiana Goulart. 
A orientação dos filhos deve ser feita por meio de uma conversa franca, na linguagem de cada faixa etária. “Desde criança é um assunto que deve ser abordado e não tratado como um tabu. Não há uma garantia que, dessa forma, não haja problemas. O importante é dar subsídios para o adolescente dar conta de fazer sua escolha, porque, no fim, caberá a ele escolher”, ressalta a psicanalista.
“Muita gente acaba começando a beber por pressão, a maioria dos amigos mais velhos bebe. Então, querendo ou não, é um ambiente que acontece muita influência”  (Aluna de 15 anos, também está no ensino fundamental de uma instituição da capital)
Empoderamento
No ambiente escolar, o assunto tem sido tratado através da inserção do estudante nos debates que envolvem temas como bebida, drogas, sexo e violência. A aposta é buscar as soluções para a questão tendo o próprio aluno como protagonista.
“A escola que não olhar para o que a pesquisa trouxe e não pensar em todas as questões de saúde, corre o risco de ter uma geração inteira com reflexos dessas questões. Para vencer o problema, é preciso ter o chamamento para que o jovem fale e atue. A saída é pensar na solução juntos”, conta a superintendente de Desenvolvimento do Ensino Médio da Secretaria de Estado de Educação, Cecília Resende Alves.
Nesse sentido, a pasta tem promovido dinâmicas de rodas de conversa, empoderamento da juventude e realizando seminários onde esses temas são discutidos. Nos próximos meses, será lançado um programa de convivência democrática para que os alunos discutam questões ligadas à saúde e violência.
Autuações em bares e restaurantes de BH demonstram descumprimento da lei
O comissariado da Vara da Infância e da Juventude de Belo Horizonte fiscalizou neste ano, entre janeiro e julho, 26.644 estabelecimentos, sendo 21.001 bares e restaurantes. Ao todo, 133 foram autuados por venda de bebida alcoólica para menores de 18 anos. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) em Minas, Ricardo Rodrigues, a entidade tem uma orientação muito clara no sentido de que os estabelecimentos cumpram a lei, o que, na grande maioria dos casos, acaba ocorrendo.  O grande problema, segundo Ricardo Rodrigues, seria o intermédio dos adultos nesse tipo de situação. “Grande parte das autuações acontece em shows, quando um maior compra e passa a bebida para o menor. A gente não consegue comprovar essa situação e a responsabilidade acaba ficando com o estabelecimento”, relata.

Dos 2,6 milhões de alunos entrevistados, 27,5% já haviam tido relação sexual (cerca de 723,5 mil); desse total, 39% (280,7 mil) não usaram preservativo na primeira vez
Falta de sabão nas instituições  de ensino dificulta higiene
A oferta de sabão pelas escolas públicas é uma das principais dificuldades a serem superadas no Brasil, segundo o (IBGE). Conforme a pesquisa divulgada, cerca de 43% dos alunos da rede pública não tinham acesso a sabão na escola. Já na rede particular, apenas 3% deles não tinham esse produto de higiene. A existência simultânea nas escolas de pia ou lavatório em condições de uso com acesso à água e ao sabão é vivenciada por 61% dos escolares que frequentam o 9º ano do ensino fundamental. A região Centro-Oeste apresenta o menor percentual de alunos em escolas da rede pública que informaram possuir pia ou lavatório em condições de uso, com acesso à água, além de sabão (46,6%).
Jovens dizem mais praticar do que sofrer bullying
Mais entrevistados relataram em 2015 terem praticado do que sofrido bullying, não apenas na escola, mas em qualquer ambiente que frequentam. Meninas são menos provocadoras do que meninos: 15,6% das alunas disseram já ter praticado bullying, enquanto entre os alunos a proporção sobe para 24,2%. A prática é um pouco mais frequente nas escolas privadas (21,2% dos entrevistados disseram fazer bullying) do que na rede pública (19,5%).