O debate sobre o impeachment de Dilma Rousseff não se restringe a argumentos técnicos e jurídicos. Apesar de não constar da peça acusatória, a crise econômica é o principal ingrediente no caldeirão da instabilidade política e foi usada, por vários senadores, para justificar a posição pelo afastamento da presidente. 
Existe, de fato, uma nítida deterioração dos indicadores econômicos entre o fim da era Lula, em dezembro de 2011, e o afastamento de Dilma Rousseff, em maio deste ano. 
O saldo de empregos (no acumulado em 12 meses) saiu de históricas 2,5 milhões de vagas criadas no último ano de governo Lula para o fechamento de 1,78 milhão até maio deste ano, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. (Veja mais informações sobre emprego na página 12).
“O que levou a essa crise foi a dificuldade da oposição de aceitar a derrota nas urnas”
Dimas Antônio de Souza
Cientista político

O PIB desabou, assim como os investimentos realizados pelas empresas. A única coisa que subiu no período foi a taxa de juros, usada para conter o ímpeto inflacionário. 
Mas é o desemprego a principal variável que gera insatisfação dos brasileiros. Sem expectativa de recolocação profissional, muitos culpam o governo pela dificuldade financeira enfrentada. Mas especialistas ponderam que nem tudo é “culpa da Dilma”.
“As crises são cíclicas no Brasil. Ocorrem de tempos em tempos e pegam diferentes governos. Não foi diferente com a Dilma”, afirma o presidente do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG), Pedro Paulo Pettersen.
O PIB, por exemplo, que teve uma queda no primeiro trimestre de 5,4% frente ao mesmo período de 2015, já vinha em desaceleração no governo Lula, com baixa de 0,1% em 2009. Ele conseguiu reverter a situação e, em dezembro de 2011, quando encerrou o ciclo, deixou o país com um crescimento de 3,9%.
“Há mais de 40 anos os governos erram em usar juros e câmbio para conter inflação.
A Dilma tentou mudar isso, mas não conseguiu por falta de habilidade política e base parlamentar”

Pedro Paulo Pettersen
Vice-presidente Corecon

Erros
O economista da Associação Nacional de Executivos de Finanças (Anefac), Andrew Storfer, acredita que a presidente afastada tenha cometido dois grandes erros: manter os gastos públicos elevados e não estimular o capital privado. “Ela drenou os recursos da sociedade sem devolver nada em troca e não deixou que empresários investissem”, afirma. 
O resultado foi uma queda de 17,5% nos investimentos no primeiro trimestre de 2016. “Se as empresas não investem elas também não empregam. E uma coisa puxa a outra”, explica Storfer. 
Incoerências de Temer mantêm cenário econômico desanimador
O impeachment de Dilma Rousseff não deverá significar a redenção da economia brasileira. No campo econômico, especialistas temem um agravamento da crise e, no social, a perda de direitos adquiridos pelos trabalhadores e população mais pobre, principal marca do governo petista. O cenário foi traçado levando em conta a sinalização dada pelo interino Michel Temer em apenas três meses de governo. 
Foi na gestão do PT que ganharam fôlego programas como o Bolsa Família, Pro-Uni, Farmácia Popular, dentre outros. Um legado que pode estar ameaçado na visão do cientista político e professor da PUC Minas, Dimas Antônio de Souza. 
“Michel Temer quer fazer mudanças que simplesmente não têm legitimidade para fazer. Não há o respaldo das urnas. Quando a população mais pobre perceber o que está por vir, esse país vai pegar fogo”, afirma. 
Michel Temer
Presidente interino promete cortes na máquina pública e, ao mesmo tempo, aumenta salários

Dentre as mudanças estão, por exemplo, cortes nos repasses para áreas chaves como saúde e educação, além das reformas trabalhista e previdenciária. 
“Acho que o cenário vai ficar ainda pior porque ele já mostrou muitas incoerências que, a longo prazo, podem trazer um efeito negativo”, destaca o vice-presidente do Conselho regional de Economia de Minas Gerais, Pedro Paulo Pettersen. 
Expectativa
De fato, o mercado não está otimista quanto aos rumos do país. O boletim Focus, do Banco Central, divulgado nessa semana, mostra uma expectativa de inflação maior do que o esperado na semana passada para este ano, passando de 7,31% para 7,34%. 
Dentre as incoerências do governo interino, está a dificuldade de realizar os prometidos cortes na máquina pública. Ao mesmo tempo que prometeu uma redução dos gastos, houve a aprovação de reajustes salariais para servidores, com impacto orçado em R$ 52 bilhões em quatro anos.
 

Indicadores despencam entre as gestões Lula e Dilma