Empresário encomenda homicídio por R$ 30 mil em São Vicente/SP

Empreitada criminosa não deu certo. Mandante e dois executores tiveram prisão decretada

A Tribuna

Durante o atentado, Humberto de Araújo Santiago
foi baleado na mão (Foto:Fernanda Luz/A Tribuna)

Sócio da Juá, uma das mais tradicionais boates da região, na Ilha Porchat, o empresário Wassim Abdouni, de 37 anos, é acusado de oferecer R$ 30 mil para que um desafeto fosse eliminado por um soldado da Polícia Militar e um segurança da casa noturna. O mandante se encontra foragido, mas os executores já estão presos. Baleada sem gravidade, a vítima é o chefe de gabinete do vice-prefeito de São Vicente.
Pistolagem de aluguel desenvolvida em roteiro de cangaço caiçara, o caso é considerado esclarecido por policiais da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Santos. A pedido do delegado Luiz Ricardo de Lara Dias Júnior, o juiz Luís Guilherme Vaz de Lima Cardinale, da 2ª Vara Criminal de São Vicente, decretou a prisão temporária de 30 dias dos acusados. Após esse prazo, deverá ser requerida a preventiva do trio.
O crime aconteceu às 17h55 do último dia 11 de agosto. Cerca de dez minutos após sair da Prefeitura de São Vicente, Humberto de Araújo Santiago, de 39 anos, chegou com o seu carro no edifício onde mora com a mulher e os dois filhos, na Rua Jacob Emerick, no Centro daquela cidade. Como um funcionário levava o lixo para a calçada, o portão da garagem estava aberto e o chefe de gabinete do vice-prefeito pôde entrar direto.
“Foi a minha sorte, senão seria morto na rua”, comentou a vítima. Com o automóvel do seu alvo em movimento, um homem se aproximou pelo lado direito e disparou. O tiro teve trajetória diagonal e atravessou o vidro lateral traseiro do carro. Ele perfurou o encosto de cabeça do banco frontal do passageiro, atingiu de raspão o lado direito superior das costas de Santiago e se alojou em sua mão esquerda.
Houve outras tentativas de disparo, mas a pistola .40 utilizada pelo atirador falhou. Em uma delas, uma cápsula intacta foi ejetada da arma, sendo coletada por peritos na garagem do prédio. O delegado Lara requereu que ela e o projétil extraído da mão da vítima sejam submetidos a confronto balístico com uma arma do mesmo calibre apreendida na residência do soldado. Os laudos ainda não estão prontos.
Após ser atingido, Santiago perdeu o controle do veículo e o colidiu em uma pilastra do condomínio. Sem consumar a empreitada criminosa, o executor fugiu correndo até uma moto pilotada por um comparsa. Uma câmera de segurança do edifício filmou o atentado.
As imagens mostram o portão do prédio aberto, a vítima chegando de carro e uma moto com dois homens parada do outro lado da rua. No momento em que o automóvel ingressa na garagem, o ocupante da garupa atravessa a rua correndo, também entra no condomínio e atira na direção do veículo. O pistoleiro está com capacete e foge em seguida com o parceiro, que já havia manobrado a moto para escapar com rapidez.
Fechamento da casa noturna Juá é suposto motivo do atentado (Foto: Luigi Bongiovanni/A Tribuna)
Propinas
O empresário supostamente tramou a morte da vítima porque lhe pagaria propinas para que a casa noturna, em situação irregular, pudesse funcionar. Porém, quando o sócio da Juá decidiu não mais realizar esses repasses em dinheiro, a boate foi alvo de fiscalização por parte da Prefeitura de São Vicente, sendo fechada. Essas informações foram prestadas pelo segurança do estabelecimento acusado do crime.
Santiago disse ser “mentira” a versão do segurança quanto ao pagamento de propinas. “Não extorqui ninguém”, reforçou o chefe de gabinete. Ele garantiu não ter relação com o fechamento da casa noturna, atribuindo-o exclusivamente a órgãos de fiscalização da Administração Municipal. Porém, disse que soube depois de várias irregularidades da boate, entre as quais a falta do Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB).
Segurança de boate aponta patrão e PM
O caso começou a ser desvendado na quinta-feira da semana retrasada (18), quando uma equipe da DIG, chefiada pelo investigador Paulo Carvalhal, revistou a casa do segurança Anderson Martinez de Lima, de 30 anos, na Vila São Jorge, em São Vicente. Suspeitas já recaíam sobre o funcionário da boate e motivaram a busca domiciliar, que contou com respaldo de autorização judicial.
Pistola 380, 35 munições do mesmo calibre e colete à prova de balas foram apreendidos no imóvel e resultaram na prisão em flagrante de Martinez por posse ilegal de arma. Porém, o que mais complicou o segurança foram as contradições ao ser questionado sobre o atentado a tiros contra o chefe de gabinete do vice-prefeito vicentino. Após negar ligação com o crime, ele o confessou com detalhes.
Martinez não admitiu apenas a autoria do tiro. Ele apontou Abdouni como mentor intelectual e mandante da ação criminosa, além de indicar o soldado Marcelo Granado Borg, de 35 anos, como sendo o seu coautor na execução. Lotado na 4ª Companhia do 6º BPM/I, o policial ainda é acusado de cuidar da logística, fornecendo a pistola e pilotando a moto Honda Broz usadas no atentado.
O segurança revelou que o patrão lhe prometeu R$ 30 mil pela morte de Santiago, adiantando o pagamento de R$ 8 mil. Deste montante, Martinez deu R$ 3 mil de entrada na compra de um Fusion e financiou o restante em uma loja de Praia Grande. A diferença de R$ 5 mil, conforme o empregado da Juá, foi dividida entre ele e Borg. A DIG apreendeu o contrato de alienação do carro.
Almoço indigesto
No dia seguinte ao crime, Martinez disse que almoçou com Abdouni em um restaurante no Centro de Santos. O segurança demonstrou ressentimento com o patrão, porque ele lhe “pagou um sapo” e o criticou por “não saber fazer o negócio direito”. Com base no relato do empregado da casa noturna, o delegado Lara requereu à Justiça a prisão temporária do empresário e do soldado, além de autorização para revistar suas casas.

Policiais da DIG e da Corregedoria da PM prenderam Borg na última terça-feira em sua residência, em Santos, onde apreenderam uma pistola .40 da corporação. O soldado negou participação no crime, mas não soube explicar por que pediu emprestada para um conhecido a moto supostamente usada no atentado. Ele foi removido ao Presídio Militar Romão Gomes, na Capital.
Simultaneamente, outra equipe da DIG esteve no apartamento do empresário, na Pompeia, em Santos, mas não o achou. Na presença de uma testemunha, o imóvel foi revistado, não sendo apreendido nada de interesse das investigações. O advogado Armando de Mattos Júnior defende Abdouni. Ele disse que avalia o inquérito para adotar a “medida jurídica necessária” e não descartou eventual apresentação do cliente.
Independentemente de ser autuado por posse ilegal de arma e munições, Martinez também teve a temporária decretada pela tentativa de homicídio e se encontra no Centro de Detenção Provisória (CDP) de São Vicente. Ele informou aos investigadores onde guardou o capacete, a calça e o par de tênis que usou no atentado, sendo o equipamento de segurança, a roupa e os calçados apreendidos.