Eleitores reclamam da falta de conteúdo dos candidatos no programa de TV

Hoje em Dia
 
Estudantes do Colégio Batista assistiram à primeira exibição do programa eleitoral gratuito e se mostraram interessados com a política e exigentes com os candidatos
O primeiro dia de propaganda eleitoral gratuita na televisão decepcionou parte do eleitorado de BH. Promessa de mudança ou continuidade, pedido de desculpas, apresentação de modelo de gestão... Nada disso foi suficiente.
O que os eleitores querem mesmo para definir o voto são propostas consistentes. E ficaram só na vontade, pelo menos foi o que disseram os ouvidos pela reportagem ontem.
O Hoje em Dia acompanhou três perfis de eleitores que assistiram o programa: alunos do ensino médio do Colégio Batista Mineiro, uma escritora e psicanalista e clientes de um restaurante popular na região Centro-Sul.
“Eles apontaram só os problemas. Faltaram propostas. Que existem falhas todo mundo sabe”, afirma a estudante Sarah Lanza Souza, de 16 anos. Essa visão foi unânime entre os alunos entrevistados. 
Na primeira eleição em que poderão votar, esperavam mais dos candidatos. “Achei tudo muito clichê. Queria algo inovador. Mas, infelizmente, pelo o que eu vi hoje, vou ter que escolher o menos pior”, avalia Gabriel Barroso dos Santos, de 18 anos.
“A ideia de continuidade apresentada pelo Délio é interessante porque ele tem plano de governo”
Artur Nabur - Estudante
Exigentes
No entanto, engana-se quem pensa que qualquer proposta irá agradar aos novos eleitores. João Lucas Silva Castro, de 16 anos, pondera: “As propostas precisam ser cabíveis para a realidade da capital”. 
Por esse motivo, a aposta do candidato Rodrigo Pacheco (PMDB), de apresentar o projeto político de Medellín, na Colômbia, não foi bem recebida pela maioria dos jovens. “Não é porque deu certo lá que vai dar aqui”, criticou Caio Jardel Mordeck Aguiar. 
Já Reginaldo Lopes (PT), que pediu desculpas ao eleitorado pelos erros do partido dele, dividiu opiniões. Alguns acharam válida a tentativa de desatrelar o histórico do candidato da ala que está sendo investigada por corrupção. Porém, para outros, não há como separar o individual do partidário.
“Achei que ele forçou a barra. A verdade é que quando você está em um partido, ele tem influência em seu mandato”, observou o estudante Arthur Nabur, de 17 anos. 
Os jovens entrevistados pela reportagem não demonstraram ter candidatos de sua preferência ainda, mas alguns já cogitam anular o voto, o quadro menos desejado.
Outros pretendem acompanhar os candidatos pelas redes sociais. Contudo, o horário eleitoral é a principal estratégia dos candidatos à Prefeitura de Belo Horizonte em função do pouco tempo de campanha. 
Postulantes dizem querer melhoras, mas não apontam soluções
“Mais do mesmo”. Foi com esta expressão que a psicanalista e escritora Iris Mendes classificou o primeiro dia do programa eleitoral gratuito, iniciado ontem. Ela assistiu aos vídeos na casa da filha, no bairro Santa Tereza, região Leste da capital, e ficou decepcionada. 
Para Iris, sobra clichê e falta conteúdo ao que os 11 candidatos mostraram. O programa eleitoral será exibido diariamente na televisão em dois blocos de 10 minutos cada, das 13h às 13h10, e das 20h às 20h10.
Eleitores reclamam da falta de conteúdo dos candidatos no programa de TV
“O eleitor não é alienado”, observa a psicanalista Iris Mendes
Iris diz que faltam propostas reais, estudos que apontem soluções. “Os candidatos falam que irão melhorar a segurança pública, a saúde e a educação, mas não apresentam planos estruturados. Usam pessoas simples e fazem filmagens em locais humildes para ganhar credibilidade. Mas isso não cola mais. O eleitor não é alienado”, critica.
Outro ponto abordado pela psicanalista foi a quantidade de candidatos. Alguns, ela sequer conhecia. “Não têm ligação com Belo Horizonte, embora estejam em partidos grandes e tenham bastante tempo de TV. Parece que eles decidiram se candidatar há um mês”, afirma. 
Na avaliação de Iris, quem deseja disputar a vaga de prefeito deve manter o relacionamento com a população em tempo integral. “A pessoa tem que manter programas sociais, visitar as comunidades. Não adianta almoçar no restaurante popular uma vez a cada quatro anos. Alguns candidatos são ícones do esporte, por exemplo. Gostaria de ver ícones da gestão na prefeitura”, alfineta.
E o vice?
Ela cobra maior participação dos candidatos a vice nos programas. Com exceção de Jô Moraes (PCdoB), vice de Reginaldo Lopes (PT), os outros apareceram pouco (ou nada) na TV.
“As campanhas têm que deixar de lado o estigma de que o vice é um cargo decorativo. O cenário que atravessamos hoje mostra a importância de conhecer bem quem assumirá o lugar do candidato caso ele seja afastado”, alerta. 
Desculpas
Um dos destaques do programa eleitoral foi o pedido de desculpas de Regina[/TEXTO]ldo Lopes em nome do PT, envolvido em escândalos de corrupção. Para a psicanalista assumir o erro foi uma atitude positiva. “Achei positivo para o partido. Foi uma atitude que mostrou hombridade, seriedade. Avaliei bem”, afirma.
“Gostaria que os candidatos não nos subestimassem. Queremos propostas reais”
Iris Mendes - Psicanalista
Atual cenário político desestimula cidadão a seguir campanha
No bar e restaurante Quero Quero, no bairro Santa Efigênia, região Centro-Sul da capital, o programa eleitoral não deu “ibope”. Eram poucos os consumidores que olhavam para um dos dois televisores entre uma garfada e outra de feijoada, prato carro-chefe da casa na sexta-feira, vendido a R$ 12.
Enquanto almoçava, o comerciante Horácio Cota de Abreu afirmou que o desinteresse com relação à campanha na televisão é culpa da corrupção que assola o país. “Estamos descrentes. Ninguém aguenta mais tanta roubalheira. Da forma como a política está hoje desestimula o eleitor”, disse.
Abreu só prestou mesmo atenção na propaganda quando viu na telinha o candidato Délio Malheiros (PSD) ao lado prefeito Marcio Lacerda (PSB), principal cabo eleitoral do postulante. “Eles têm feito uma boa administração”, opinou. 
Para ele, apesar da decepção com a classe política, as pessoas precisam se informar e acreditar que existe “candidato que presta”.
Eleitores reclamam da falta de conteúdo dos candidatos no programa de TV
Cristiano Alves não assistiu até o fim o programa: “Não gosto de campanha”
Revolta
O motorista Cristiano Márcio Alves nem esperou o final do programa eleitoral, que durou 10 minutos, para se levantar da mesa e pagar a conta. 
“Não gosto de campanha. Acho um desperdício de dinheiro”, contou ele, depois de dar uma espiada na TV nos poucos segundos em que o candidato Alexandre Kalil (PHS) apareceu. “Ele fala a nossa língua”, disse.
Para o mecânico Welington Silva, é importante usar as informações da televisão para decidir o voto. “É bacana assistir e ver as propostas. Para quem está indeciso, pode ser que ajude”; ele não teve paciência de esperar o término do programa.