Edson Gomes não carrega balas, frutas, capas de volante ou folhetos de ofertas. Zanzando entre os carros, durante o sinal vermelho na avenida Afonso Pena, próximo à Praça 7, na manhã de ontem, a única coisa que esse auxiliar administrativo desempregado quer “vender” é a si próprio.
Sem trabalhar desde dezembro do ano passado, aos 31 anos, Edson encontrou um jeito inusitado de buscar um lugar no mercado de trabalho: distribuir seu currículo para motoristas que param no local por breves segundos. A sugestão partiu da namorada, Lidia Stace, que viu algo semelhante em São Paulo.
No lugar de caras e vidros fechados, Edson tem recebido muita solidariedade. “As pessoas pegam o papel, perguntam o que é e muitas delas dizem que vão passar para um conhecido”, diz Edson pouco depois de entregar cerca de 250 currículos, entre 9h e 10h da manhã.
Ajuda
Quis o destino que, após meses batendo na porta das empresas da sua região, no bairro Nacional, em Contagem, o primeiro retorno tenha vindo justamente de uma motorista, especialista em recursos humanos. “Fui até a empresa dela, que refez o meu currículo e repassou uma lista de contatos”, comemora.
Mas Edson não pretende desistir das ruas. “Enquanto não tiver nada certo, vou continuar”, avisa. A namorada, a quem ele responsabiliza por mudar sua vida em 100%, sugeriu que ele não permaneça em apenas um local. A primeira tentativa foi na semana passada, na avenida Getúlio Vargas, na Savassi.
Enquanto isso, para sobreviver e pagar a pensão de dois filhos, Edson tem feito serviços de garçom, sua primeira profissão. O que gosta, porém, é da área administrativa. Chegou a passar no vestibular de Administração, no início do ano, mas a falta de dinheiro para pagar as mensalidades adiou o sonho.
Carinho
A namorada, com quem vive há cinco anos, na casa da mãe dela, tem bancado as principais despesas da casa. A sugestão dela em entregar currículos no trânsito não foi bem recebida no início, confessa Edson. “Achava que não iria dar certo, que as pessoas não iriam gostar (da abordagem)”, registra.
O carinho das pessoas tem sido um contraponto a um mercado cada vez mais restritivo, agravado pela crise econômica. “Nesse ano, consegui um emprego como sub-gerente numa loja da Ceasa. Só fiquei 11 dias. Disseram que não poderiam continuar comigo por causa da crise”, lamenta Edson.