Veja como ocorrem os assaltos aterrorizantes a transportadoras de valores

Três empresas de valores foram invadidas neste ano no estado de SP.
Criminosos usaram fuzis, explosivos e bloquearam ruas para levar milhões.

Kleber Tomaz e Paulo Toledo Piza* Do G1 São Paulo
Armas de guerra, explosivos, caminhões em chamas e pregos retorcidos estão sendo usados por criminosos encapuzados em ataques aterrorizantes a transportadoras de valores no estado de São Paulo. O último, ocorrido em Ribeirão Preto em 5 de julho, teve tiroteio que durou 40 minutos e deixou um PM e um morador de rua mortos.
A quantidade de assaltantes (pelo menos 20), o horário dos roubos (às 4h) e a fuga (por rodovias) levam a Polícia Civil a suspeitar que os crimes estão sendo cometidos por uma mesma quadrilha –ligada à facção que age dentro e fora dos presídios paulistas.
Além das transportadoras, os criminosos visam também carros-fortes: o último ataque a veículos ocorreu na noite de sexta, em Suzano. Os vigilantes conseguiram passar por uma barreira de carros em chamas na Rodovia Índio Tibiriçá e escaparam da emboscada.
O G1 ouviu especialistas, policiais, a Secretaria da Segurança Pública (SSP), o sindicato que representa os vigilantes e a associação das transportadoras para tentar explicar como ocorrem os ataques; veja abaixo.
Mapa dos assaltos a transportadoras de valores em São Paulo (Foto: Editoria de Arte/G1)
Para dificultar a reação da Polícia Militar (PM), assaltantes passaram a bloquear ruas com carros e espalharam pregos retorcidos nas vias. Isso foi feito nos três ataques realizados às empresas de transporte de valores. Dinamites roubadas de pedreiras serviram para explodir paredes das bases e chegar aos cofres.
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Esquema de assalto a transportadoras de dinheiro (Foto: Editoria de Arte/G1)
Armas
O armamento que vem sendo usado pelos criminosos nos ataques impressiona pelo poder de fogo. Fuzis 762 e 556, adotados por exércitos, e metralhadoras .50, capazes de derrubar aeronaves, estão intimidando vigilantes e policiais.

“Infelizmente o vigilante e o policial não têm condições de fazer frente aos criminosos pelo armamento que estes possuem”, disse o coronel Wanderley Mascarenhas, que atuou no Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), uma das tropas de elite da PM de São Paulo.

Por lei, vigilantes usam revólveres calibre 38 e espingardas calibre 12. Policiais militares podem ter a pistola .40 e, alguns grupos especiais, fuzis e metralhadoras. “Está difícil, viu? Tem sido um ataque mais violento que o outro e está deixando todos os vigilantes assustados”, disse João dos Passos da Silva, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Serviço de Carro Forte e Escolta Armada do Estado de São Paulo (Sindforte). “O profissional sempre chega a revidar, mas como revidar com um armamento desse pela frente? Vai revidar para morrer?"

Arsenal - arte - transportadoras - VALE ESTE (Foto: Arte/G1)
Investigação
Após os crimes, policiais civis conseguiram recuperar cerca de R$ 10 milhões do roubo em Santos, ocorrido em 4 de abril, informou a SSP. Sete suspeitos de participar do ataque em Campinas, realizado em 14 de março, acabaram detidos. Armas e munições foram apreendidas. Um policial do 2º Distrito Policial (DP) de Campinas foi preso após encontrarem R$ 410 mil em sua casa.

Segundo a polícia, a ação em Campinas foi planejada por Luciano Castro de Oliveira, conhecido como Zequinha. Um dos homens mais procurados do país, ele foi condenado a 53 anos de prisão por assaltos a bancos, mas fugiu da antiga Casa de Detenção de São Paulo em 2001.
O coronel Wanderley Mascarenhas disse que chama a atenção a habilidade da quadrilha no manuseio de armas pesadas. "Tem alguém treinando esse pessoal”, afirmou. “Não descarto ex-policiais ou ex-militares integrarem ou darem os treinamentos às quadrilhas.”
Segundo o especialista, a facção criminosa que atua a partir dos presídios paulistas determina o destino do dinheiro. “Elas terceirizam os serviços. Às vezes a quadrilha não quer investir na compra do armamento, que custa uns R$ 50 mil, e o aluga por até R$ 5 mil por dia para cometer novos roubos.”
Em abril, o delegado Fábio Pinheiro Lopes, que comanda a Delegacia de Combate a Roubos a Bancos, do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), disse à TV Globo que os criminosos migraram dos carros-fortes para as empresas. "Hoje o comércio está sem dinheiro, a sociedade está sem dinheiro. O dinheiro está nos bancos e nas empresas de valores", afirmou. Para ele, os bandidos passaram a agir mais no interior por causa do grande efetivo policial presente na capital. "No interior, por questão de logística, geralmente o efetivo no período noturno é baixo."
O coronel José Vicente da Silva Filho, ex-comandante da PM e ex-secretário nacional de Segurança, disse ao G1 que os ataques expuseram, além da fragilidade do armamento dos policiais, falhas da investigação da Polícia Civil. “Mesmo após as ações ocorridas em Santos e Campinas, não houve reação inteligente por parte da polícia para prever um novo ataque, como o que ocorreu em seguida em Ribeirão Preto”, disse.
Duas equipes do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) foram enviadas da capital ao interior do estado para auxiliar nos trabalhos de policiais de Ribeirão Preto. Carros blindados deixados pelos assaltantes foram encontrados.
O governo está oferecendo R$ 50 mil para quem der informações que levem à prisão dos criminosos que mataram o PM no ataque de Ribeirão Preto. O mesmo valor já havia sido oferecido para denúncias que levassem à detenção dos envolvidos no assassinato de dois agentes em Santos.
´Pente fino'
O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, afirmou na quinta-feira (7) em São Paulo, que vai passar um “pente fino” em todas as empresas que realizam transportes de valores no país. Uma nova regulamentação que, segundo ele, deve sair em até 10 dias, vai intensificar a fiscalização e o rigor na concessão de autorizações para que as transportadoras atuem.

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) havia pedido um maior rigor no credenciamento e na fiscalização não só das sedes das empresas, mas também dos trajetos por elas percorridos. Para o governador, transportadoras que não possuem um esquema de segurança ideal expõem a população.
Procurada pelo G1 para comentar o assunto, a Associação Brasileira de Transportes de Valores (ABVT) repudiou a responsabilização das empresas pelos casos ocorridos neste ano. “As empresas são vítimas da frágil situação da segurança pública do país” informa em nota. “As empresas seguem estritamente as normas para estrutura física estabelecidas pela Polícia Federal.”