"Saúde "Repasse de fita de glicemia passa a ser restrito em BH

Diminuição de verba e insumos também gera ‘efeito cascata’ em outras capitais

O Tempo

Inviável. Diabética, Carol Freitas está usando fitas vencidas; caixa com 50 unidades custa até R$ 110
 

A Secretaria Municipal de Saúde (SMSA) de Belo Horizonte emitiu nesta semana uma nota técnica que restringe a distribuição de fitas de glicemia, usadas por diabéticos para controlar a doença. As fitas passaram a ser distribuídas somente a crianças menores de 12 anos, gestantes e pacientes que fazem hemodiálise.

A justificativa para a restrição é a falta de insumos, que deveriam ter sido enviados pela Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG). “Em março, a SES disponibilizou o recurso de R$ 1,2 milhão para a SMSA e informou que não fornecerá o insumo no segundo semestre de 2016. O recurso repassado naquela época possibilitou a aquisição de 3,4 milhões de tiras de glicemia, quantidade insuficiente para atender a demanda anual da Rede SUS-BH”, esclareceu a SMSA.

Questionada, a SES-MG declarou, também por nota, que o fornecimento está regular. “A quantia enviada correspondeu a todo o valor investido em tiras reagentes para o município no ano de 2016”, garante o texto.

A SMSA-BH, contudo, esclarece que R$ 1,2 milhão foi o orçamento disponibilizado pela SES-MG para a compra desses insumos, e o órgão municipal utilizou inteiramente a quantia. No entanto, o total de fitas compradas ainda é insuficiente para o número de pacientes insulinodependentes da cidade.

A SMSA/BH declara ter uma demanda real de aproximadamente 1 milhão de fitas por mês. Assim, as 3,4 milhões de unidades compradas pela SES-MG foram suficientes para pouco mais de três meses.

Para quem precisa das fitas, a realidade é dura e cheia de incertezas. De acordo com a profissional de relações públicas Carol Freitas, 37, o fornecimento das fitas na rede pública está irregular desde janeiro do ano passado. “Moro na região Oeste de Belo Horizonte. Fiz um levantamento dos 18 postos de saúde da região e, até abril, nenhum deles tinha fitas. A SMSA sempre me falava: ‘Estamos regularizando (a situação)’, e não resolviam nunca”, critica Carol.

Diagnosticada com diabetes ainda bebê, ela conta que usa de seis a oito fitas de glicemia por dia, e comprá-las na rede privada de saúde é inviável. “Cada caixa de fitas vem com 50 unidades e custa entre R$ 100 e R$ 110. Uso quatro caixas por mês”, revela. Atualmente, Carol está se arriscando com algumas fitas que estão com a validade vencida, que ela recebeu como doação de amigos de outros Estados.


Repúdio. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) em Minas Gerais se declarou surpresa com a decisão da SMSA-BH, já que as fitas têm papel importante na medição da quantidade necessária de insulina que cada paciente precisa.

“O uso de insulina salva a vida das pessoas com diabetes, mas envolve também risco. Em excesso, aumenta muito o perigo de complicações crônicas da doença. Em glicemias muito baixas (hipoglicemias), podem ter consequências agudas gravíssimas, como perda de consciência, crises convulsivas e acidentes automobilísticos, além de eventos cardiovasculares graves como arritmia cardíaca, infarto agudo do miocárdio ou mesmo acidente vascular cerebral (AVC)”, declarou a Sbem em nota à imprensa.

“Essa medida representa um prejuízo enorme, que poderá representar o descontrole de pacientes que já estavam com a doença controlada”, complementa o presidente da sociedade, Márcio Lauria.
Tratamento
Moderno. A alternativa mais atual para o tratamento do diabetes é a bomba de insulina, que é implantada no abdômen do paciente. Ela faz as medições e dispensa a insulina automaticamente.
Alternativas
SUS. A SMSA sugere que os pacientes que não receberão mais as fitas se dirijam a unidades básicas de saúde para fazer suas medições. Essa medida, no entanto, pode ser inviável, já que certos pacientes fazem a medição até 12 vezes por dia.

Não é gratuito. Está para ser lançado no Brasil o equipamento Libre, um sensor que é colocado no braço e cujo leitor faz as medições da glicose. O kit custa R$ 599 e cada sensor, que dura duas semanas, custa R$ 240.
Em Maceió, falta atinge todos os itens
Os recursos para compra de insumos para diabéticos são repassados pelo Ministério da Saúde para os Estados que, por sua vez, os destinam aos municípios. No país, cidades como Maceió (AL), Petrolina (PE) e Brasília (DF), somente para citar algumas, passam por situação semelhante à de Belo Horizonte, com restrição para a distribuição de fitas reagentes.

O pior cenário é em Maceió, onde pacientes com diabetes e seus familiares realizaram, nessa quarta-feira (6), um protesto em frente à Secretaria de Estado da Saúde (Sesau). Lá, além das fitas de insulina, faltam a insulina lantus e insumos para bombas de insulina, que já deveriam ter sido entregues desde novembro de 2015. “O custo médio para uma criança que não utiliza a bomba é de R$ 1.300 por mês. Já para as que usam a bomba, esse valor sobe para R$ 2.400”, diz Cícero dos Santos, pai de uma garota diabética. (RS)