Casal é preso em Nova Lima por maltratar menina com deficiência

Desnutrida e fraca, a menor, que é deficiente mental, ficava dias sem comer para evitar sujar a casa com as fezes que fazia

O Tempo

Envolvida pelo abraço da tia e pela proteção dos investigadores da Polícia Civil, Gabriela*, de 20 anos, parecia estar aliviada. Na bota, tamanho 36, a canela sobrava como se o número fosse para alguém com o dobro do tamanho dela. Incorreto, porém, não era o número do calçado, e sim a forma como a menina vinha sendo criada pela mãe e um padrasto. Desnutrida e fraca, a menor, que é deficiente mental, ficava dias sem comer para evitar sujar a casa com as fezes que fazia.
Nesta quarta-feira (20), na Delegacia de Mulheres de Nova Lima onde a mãe, Adriana Pereira Santos, de 41 anos, e o padrasto, Jânio Lúcio de Moraes, de 49, foram apresentados, repórteres e policiais estavam atônitos diante da história que, a cada detalhe, impressionava mais. Pesando 33 kg, Gabriela chegou a tentar comer do lixo que estava na cozinha da delegacia para saciar a fome.
“A mãe disse chegou a deixá-la até quatro dias sem comer”, contou a delegada Karine Resende.
O casal foi preso na última sexta-feira (15), após um familiar da jovem denunciar à Polícia Civil que ela vinha sofrendo maus tratos. “Na casa dela, a equipe se deparou com um cenário em que ela estava visivelmente privada de alimentos. Quando chegou na cozinha da delegacia, ela avançou na comida, pegou frutas, queria ir nas panelas, pegando com a mão, desesperada para comer”, disse Karine.

Explicações
Nervosa, a mãe assumiu que há pelo menos seis meses deixava a filha sem comer, em dias alternados, mas entrou em contradição. “Tinha dia que ela falava que não ia comer porque estava passando mal, porque ia defecar na cama, fazer xixi. Eu dava comida ele escondida”, disse.

Ao lado dela, estava o marido, de costas e em silêncio. Perguntada se tinha medo do marido, Adriana disse que não sabia. Também afirmou não saber o porquê de a filha pesar tão pouco.
“Tenho dó dela e estou arrependida do que fiz com a minha filha. Eu vejo os meninos todos perfeitos, só ela que não. Eu dou conta de cuidar da minha filha. Não sei explicar como que deixei acontecer tudo isso”, afirmou, chorando.
O padrasto, que trabalha como vigia, disse que foi preso pois a mulher queria envolvê-lo na história para estar junto dele. Em depoimento, a jovem disse que o padrasto batia a cabeça dela na parede para castigá-la. Ele negou as agressões.
Jovem pode ter sido abusada sexualmente
Além dos maus-tratos, a jovem denunciou ter sido vítima de abusos sexuais e afirmou que era obrigada a tomar banho de porta aberta, pois o padrasto gostava de ver. “Eu desconheço, toda vez que ela ia tomar banho, a mãe dela estava junto. Eu só fiquei sabendo que ela não era moça mais quando a Polícia Civil me acusou desse crime. Mas eu não fiz, nunca bati nela”, afirmou Moraes.
Neste momento, o padrasto, que estava de costas se virou, após ser provocado por um cinegrafista.
A mãe da vítima disse que não sabia se  a filha era abusada, e afirmou que comprava anticoncepcionais pra ela apenas para prevenir, pois “ela gosta de andar sozinha”.
Os suspeitos moram no bairro Honório Bicalho, em Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte. Além da jovem, o casal criava outros três filhos de Adriana, de 8, 11 e 12 anos, além de uma neta dele, de 5 anos. A vítima agora está aos cuidados de uma tia. A família não tem informações do pai biológico da menina.
*Nome fictício