Até o final da década de 1980, elas eram meros acessórios nas mãos de crianças inocentes brincando de polícia e ladrão. No século 21, foram transformadas em objeto de intimidação e ameaça a vítimas da violência. É crescente o número de réplicas de armas de fogo apreendidas com criminosos em Minas Gerais, reflexo da onda cada vez maior de roubos mediante uso dos simulacros.
Em todo o Estado, o recolhimento de réplicas pelas forças policiais aumentou 22,8% de janeiro a junho deste ano, na comparação com o mesmo período de 2015. A estatística sobe para 28,1% na Região Metropolitana de Belo Horizonte e 34,5% na capital. A média é de duas armas de brinquedo apreendidas por dia em crimes registrados em BH, segundo dados da Polícia Civil.
Na avaliação do tenente Cristiano Araújo, que responde pela chefia da Sala da Imprensa da Polícia Militar (PM), o crescimento dos números aponta duas vertentes. “Há uma incidência maior do emprego de simulacros por criminosos, que merece ser alvo de nossas atenções. Também devemos considerar que está sendo positivo nosso trabalho operacional após a prática do crime ou em abordagens rotineiras”.
Ele não apresentou estatísticas que comprovem o aumento dos roubos com emprego de simulacros. Mas em uma rápida averiguação feita a pedido da reportagem, o oficial encontrou no sistema on-line da PM três ocorrências registradas apenas na última segunda-feira.
Elas foram encerradas em unidades distintas da Polícia Civil: Divisão de Orientação e Proteção à Criança e ao Adolescente (Dopcad) e delegacias do Barreiro – ambas em BH – e de Betim.
Uma fábrica clandestina de munições, armas de fogo e simulacros foi descoberta ontem pela Polícia Civil no bairro Ouro Preto, em BH; um homem foi preso com réplicas de fuzil e pistola e materiais para a construção do armamento

Pistolas
Muito semelhantes às armas verdadeiras, as réplicas são usadas principalmente em roubos. “São frequentes, não são ocorrências raras. A intenção do autor (criminoso) é causar temor para subtrair o patrimônio da vítima mediante grave ameaça”, aponta o tenente Cristiano. 
De acordo com ele, as imitações de pistolas são as mais comuns. Com tamanha semelhança, a orientação da PM é para que a vítima nunca reaja por achar que o bandido está portando um simulacro. “Nunca tente analisar o potencial letal de uma arma”, alerta.
O oficial dá outra dica. “Os pais que percebem filhos com armas de brinquedo nas mãos devem tomar providências, porque a abordagem policial é a mesma feita em alguém que esteja portando uma de verdade”.
A Polícia Civil foi procurada, mas nenhum delegado foi indicado para comentar sobre as apreensões de simulacros
Réplicas de armas
SIMULACROS – Apreensões aumentaram 34,5% em BH no primeiro semestre deste ano
Falhas no Estatuto do Desarmamento e mercado negro ‘armam’ os assaltantes
Falhas na lei permitem que réplicas de armas de fogo se espalhem pelo mundo do crime. A avaliação é do presidente da Comissão de Assuntos Carcerários da seção mineira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG), Fábio Piló.
Ele explica que o artigo 26 do Estatuto do Desarmamento, de 2003, veda “a fabricação, a venda, a comercialização e a importação de brinquedos, réplicas e simulacros de armas de fogo, que com estas se possam confundir”. “Porém, a legislação não criminaliza todas essas situações (descritas no artigo), não aponta quais são as penas nem deixa claro de quem é a competência pela fiscalização”, critica. Ele destaca que leis estaduais e municipais complementares preveem multas como punição.
Em Minas, a comercialização de armas de brinquedo é proibida pela Lei 8.106/2000. Na Câmara de BH tramita o projeto de lei 1.000/2014, com o mesmo teor, pronto para ser aprovado em segundo turno.
Segundo o tenente Cristiano Araújo, da Sala da Imprensa da PM, cabe ao Exército fiscalizar a venda ilegal de simulacros. Mas ele reconhece que criminosos adquirem as réplicas no mercado negro. “Não temos na PM uma investigação que aponte a procedência das réplicas apreendidas. Mas, além do mercado ilegal, é comum a produção artesanal pelo próprio criminoso”.
Em casas especializadas, a venda de armas de pressão (as letais são de explosão) usadas, por exemplo, em provas de tiro, só é permitida com autorização do Exército. “Também é preciso que o Exército autorize o porte dessas armas”, diz o tenente Cristiano.
“Brinquei muito com réplica quando era criança e não me tornei um criminoso. Não adianta proibir a venda, porque vai continuar acontecendo no mercado paralelo”, destaca Fábio Piló.
Réplicas de armas