Dois jovens, usando chinelos, chegam e cumprimentam alunos à espera do início das aulas. Eles acendem um cigarro de maconha e fumam ali mesmo, em frente à escola, numa rua mal iluminada. Não ficam inibidos com a presença do guarda municipal, que de vez em quando aparece no portão.
A cena foi registrada pelo Hoje em Dia na Escola Municipal Hélio Pellegrino, no bairro Guarani, região Norte de Belo Horizonte. Porém, é recorrente em instituições públicas de ensino de várias partes da capital mineira.
Os reflexos disso deixam alerta as Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Estudo da organização internacional aponta o uso de drogas como um dos principais causadores do desinteresse pelo estudo e queda no rendimento, levando à repetência e à evasão escolar.

“Influencia muitíssimo no aprendizado, porque o aluno fica fora da escola para usar a droga, falta às aulas com frequência. A maconha provoca dificuldades de memorização, problemas físicos e psicológicos. O aluno rende menos, fica mais apático. O adolescente não dorme e não come bem”, afirma a mestre em ciência da saúde Maria Rebeca Otero Gomes. Graduada em enfermagem, ela é coordenadora de Educação da Unesco no Brasil.
Bomba
Aos 20 anos, um ex-aluno de uma escola pública do Barro Preto, Centro-Sul da capital, conhece bem os prejuízos causados pela droga ao aprendizado. “Estudei lá até os 17 anos, e aos 13 comecei a fumar maconha. Dei umas bolinhas (fumar, na linguagem dos usuários) até dentro do banheiro, mas as paradas aconteciam mais fora da escola”, relembra o rapaz.
O resultado foram três repetências. “Matar aula rolava direto. A maconha me fez repetir de ano sim, mas no aprendizado não me afetou muito, porque sempre fui um cara inteligente. O problema é que eu perdia muitas aulas”, avalia.
Ludmilla Skrepchuk, coordenadora de Ações Intersetoriais da Secretaria Municipal de Educação (Smed) de BH, lista outros danos causados aos estudantes pelas drogas: “Déficit cognitivo, de atenção e de memória, dificultando a compreensão dos conteúdos”.
Rede de especialistas para conter dependência química e violência do tráfico
Drogas nas escolasNO MANTIQUEIRA – Alunos da Escola Municipal Professor Pedro Guerra se reúnem no ponto de ônibus ao lado da instituição para confeccionar e acender um baseado
Além de prejudicar o desempenho dos estudantes, as drogas estão relacionadas à violência dentro e fora das escolas. O consumo, segundo especialistas, fomenta o tráfico na porta dos colégios, podendo, inclusive, provocar disputas entre gangues.
“O consumo de droga aproxima a violência urbana das escolas. Dentro delas, quem vende são os próprios alunos, motivados por aspectos econômicos, uma forma até de movimentar recursos para sustentar o próprio vício. No entorno, o tráfico é feito por pessoas de fora do contexto escolar”, afirma Maria Rebeca Otero Gomes, coordenadora de Educação da Unesco no Brasil.
A Divisão de Orientação e Proteção à Criança e ao Adolescente da Polícia Civil informou que só poderia falar sobre o assunto na semana que vem
O envolvimento de estudantes com o mundo das drogas nas imediações de onde estão matriculados também foi flagrado pela reportagem ao fim do turno da noite na Escola Municipal Professor Pedro Guerra. Com 944 alunos, ela fica no bairro Mantiqueira, em Venda Nova.
Rapazes aguardavam do lado de fora. Por volta das 21h30, quatro estudantes, aparentemente adolescentes, saíram pelo portão e foram ao encontro do grupo. Em seguida, sentaram em um ponto de ônibus, enrolaram e acenderam um cigarro de maconha.
Desafio
Para encarar o desafio de prevenir e reprimir as drogas no ambiente escolar, a Secretaria Municipal de Educação (Smed) de BH trabalha em parceria com outros órgãos públicos, das áreas de saúde, segurança, política e assistência social, além de pesquisadores de instituições de ensino superior.
“Todas as nossas ações contra o uso e abuso de drogas, ilícitas e lícitas, pois o álcool e o tabaco também são muito nocivos, são feitas de forma intersetorial. São intervenções que obedecem diretrizes de caráter repressivo, dentro das escolas, e de mapeamento e identificação dos usuários, com a proposta de redução dos danos”, destaca Ludmilla Skrepchuk, coordenadora de Ações Intersetoriais da Smed.
Segundo ela, estão sendo modeladas dentro do programa “Rede pela Paz” novas ações permanentes de combate às drogas. O projeto piloto está previsto para ser testado em agosto em nove escolas (uma por regional). “A adolescência é a idade da descoberta, da curiosidade, da experimentação. A proposta é impedir quem experimentou de se tornar um viciado”.