Uma vez por semana, militares da 15ª Companhia vão à Escola Estadual Deputado Álvaro Salles, no bairro Trevo, região da Pampulha. A meta é impedir que os estudantes se envolvam com as drogas e se tornem alvos da violência. Mas os policiais não fazem isso de forma repressiva. As armas usadas por eles são diálogo e atividades artísticas e culturais.

A convivência harmoniosa entre alunos e a Polícia Militar (PM) é comemorada pela diretora da escola, Vanessa de Oliveira. “Não enfrentamos problemas relacionados ao uso de drogas e o índice de violência é quase zero”, afirma.
Com a falta de um programa de prevenção permanente no currículo escolar, coube à educadora, que também preside o Conselho Comunitário de Segurança Pública (Consep) 15, ligado à companhia da PM, tomar a iniciativa de procurar a corporação. 
Há três anos, os militares coordenam na escola o programa “Juventude e Polícia”. O carro-chefe é a oficina de percussão. “Trabalhamos com meninos em situação de risco e o efeito dessa atividade é muito positivo. Os alunos fazem apresentações pela cidade, viram lideranças para os colegas e os pais nos dizem que o comportamento em casa melhora muito”, diz a diretora.
Participam do programa estudantes de 10 a 18 anos. “No início foi um pouco complicado, os adolescentes não aceitavam muito nossa presença. Mas com as palestras e oficinas, eles abraçaram a proposta”, destaca o sargento Ivan Emerick Júnior.
Ele é um dos militares envolvidos. “A conversa com os alunos é bem ampla. Falamos não apenas sobre drogas, mas de família, comportamento e abordagem policial”.
“A polícia tem boa vontade, mas sem a participação das secretarias de Educação, vira uma inversão de papéis” (Salete Maria Vizzolto, mestre em ciências sociais"
Parceria
Desde segunda-feira (20), o Hoje em Dia vem apontando os reflexos do consumo e venda de drogas no contexto das escolas estaduais e municipais de Belo Horizonte. Resultado, segundo especialistas, da inexistência de ações permanentes traçadas por gestores de educação pública. Para suprir essa falha, as escolas buscam o apoio de outros órgãos, como mostrado hoje, no encerramento da série de reportagens.
A parceria com a PM firmada na Escola Estadual Deputado Álvaro Salles é uma das saídas, de acordo com a mestre em ciências sociais Salete Maria Vizzolto. “A nossa polícia tem boa vontade em fazer esse trabalho. Porém, não há participação das secretarias de Educação, e isso vira uma inversão de papéis”, critica a especialista.
Ela é autora do livro “A droga, a escola e a prevenção”, o primeiro do tema publicado no Brasil, na década de 80.
Justiça e Ministério Público se unem aos militares pela educação
Responsável pelo “Juventude e Polícia”, a Diretoria de Apoio Operacional da PM também está à frente do Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd). Segundo o capitão Flávio Santiago, chefe da Sala de Imprensa da corporação, mais de 3 milhões de estudantes (do 5º a 7º ano do ensino fundamental) e pais já foram atendidos pelo Proerd em Minas.
Durante seis meses, militares vão às escolas, uma vez por semana, para ensinar aos alunos estratégias de boa conduta, para afastá-los da violência urbana. “Entre outras coisas, são passadas lições sobre os malefícios das drogas. Ensinamos como resistir à pressão dos grupos para o consumo”, destaca o capitão Santiago.
O programa é executado em escolas públicas, mas também é levado para as particulares que manifestam interesse. Os militares deixam de ser vistos apenas como agentes repressores e se tornam referências dos estudantes. “Em todo local que encontra facilidade, inclusive nas escolas, o traficante está presente. Ele entra, sobretudo, na ausência da família. O Proerd tem o papel se suprir essa ausência”, diz o oficial.
Linhas de frente
Coordenadora do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes, a promotora Paola Domingues Botelho Reis de Nazareth demonstra preocupação com o avanço das drogas entre alunos de escolas públicas da capital. “O uso de drogas por adolescentes é grave e a violência escolar é uma porta para isso. O Ministério Público tem trabalhado em ações diversas de enfrentamento ao problema da vulnerabilidade social”.
De acordo com a promotora, são ações em parceria com os serviços de assistência social, para o fortalecimento dos vínculos familiares, e de repressão, com medidas socioeducativas na área infracional.
Por meio da assessoria de imprensa do Fórum Lafayette, a juíza Valéria da Silva Rodrigues, titular da Vara Infracional da Infância e Juventude de BH, informou que “a Justiça auxilia a Polícia Militar na execução do Proerd”.
A intervenção dos militares nas escolas é apoiada pela mestre em ciências sociais Salete Maria Vizzolto. “A única coisa que tem mostrado eficiência para combater as drogas e a violência é o Proerd, dando algum resultado, por se tratar de um trabalho sistemático, contínuo”, avalia a especialista.
Repressão
A PM também trabalha com a Patrulha Escolar para coibir a atuação de traficantes. “Cada batalhão tem sua patrulha, que fica em contato direto com os diretores e faz ronda na entrada e saída dos alunos”, explica o capitão Santiago.