Motorista transforma restos de madeira em peças exclusivas e descobre nova vocação

Morador de Praia Grande no Litoral Paulista, Carlos Borges tem recolhido matéria-prima de sobras descartadas nas ruas

A Tribuna

Pedaços de  madeira recolhidos das ruas se transformam em peças exclusivas nas mãos do motorista. Foto: Claudio Vitor Vaz

Andando pelas ruas da Baixada Santista, é quase impossível não se deparar com restos de madeira e móveis abandonados, apodrecendo a céu aberto. Tamanho descaso sensibilizou, há dois anos, o motorista de ônibus Carlos Borges, de 47 anos, que decidiu aproveitar as sobras que poderiam ir parar no lixo para produzir peças exclusivas, que hoje são comercializadas para amigos e familiares. 
Além de ajudar a preservar o meio ambiente, Borges conseguiu dar um drible na crise econômica ao encontrar uma atividade que pode ser sua saída financeira depois de se aposentar.

“Nunca imaginei que viveríamos uma crise como essa. E, na região, principalmente em Cubatão, estamos vendo diversos trabalhadores sendo desligados nos últimos meses. Pensei que, ao dar um novo destino a esse lixo, também poderia descobrir uma nova vocação”, comenta o motorista, que afirma ter perdido as contas de quanto material já viu pelas ruas.    
Na oficina, que fica nos fundos de sua casa, ele atende a encomendas de amigos e familiares. Foto: Claudio Vitor Vaz
Morador de Praia Grande, Borges decidiu, então, levar as primeiras sobras de madeira para casa e, mesmo sem nenhuma experiência no ramo da marcenaria, não levou muito tempo para descobrir que, por trás daquele motorista, existia um verdadeiro artesão. 
“Comecei fazendo peças para casa. A primeira delas foi um quadro com retalhos de madeira, que guardo até hoje. Logo depois fiz uma mesa de centro, que começou a chamar a atenção de alguns amigos”. 
O amor pela nova atividade, somado ao capricho visível a cada peça confeccionada, fizeram com que inúmeras encomendas surgissem em pouco tempo. “Já perdi as contas de quantos itens projetei. Acredito que em torno de mil peças”, brinca o motorista, que hoje consegue um incremento de até 50% na renda doméstica. 
Entre os itens desenvolvidos, há de tudo um pouco. “Não sigo um estilo. Me considero uma pessoa autodidata e curiosa. Por isso, sempre estou buscando algo novo. Já fiz balcão para comércio e salão de beleza, diversas mesas, cadeiras, bancos para quintais e até mesmo um carrinho para doces gourmet, que fez o maior sucesso e rendeu depois diversas outras encomendas”.  
Peças se transformam em delicados objetos.
Foto: Claudio Vitor Vaz
Todas as peças, confeccionadas em uma oficina montada dentro de casa, segundo o motorista, são exclusivas e levam tudo que é possível ser reciclado. Por isso, explica Borges, todo o resto de madeira abandonado pelas ruas da região tem servido de matéria-prima para a fabricação de boa parte das peças. A iniciativa, segundo ele, é uma forma de despertar o interesse para questões ambientais. 

“É uma pena não existir uma política de reciclagem na nossa região. Parece que é mais fácil derrubar uma árvore do que aproveitar algo que não tem serventia”.

Confira algumas das peças desenvolvidas pelo motorista: