Faltavam poucos minutos para a entrada do turno da noite no Instituto de Educação de Minas Gerais. Dentro das muretas que cercam o prédio rosa da tradicional escola pública de Belo Horizonte, alunos se posicionam em roda. Sem se intimidar com os vigias da instituição de ensino, um deles enrola um cigarro de maconha. Aceso, o baseado passa de mão em mão. Inebriados, os estudantes seguem para a sala de aula.
As cenas registradas num início de noite, com trânsito e movimento de pessoas intensos na avenida Afonso Pena, assim como em todo o entorno do Instituto de Educação, no bairro Funcionários, região Centro-Sul de BH, se repetem em escolas estaduais e municipais de todas as partes da cidade. Resultado, segundo renomados especialistas em educação, da inexistência de políticas públicas permanentes de prevenção direcionadas a professores e alunos.
Esta falha dos gestores da educação pública causa, sobretudo, prejuízos ao aprendizado das crianças, adolescentes e jovens que entram para o mundo das drogas, muitas vezes aliciados por colegas de classe. 
O consumo frequente tende a provocar crises de relacionamento com educadores e outros estudantes. E o mais grave: atrai traficantes e, consequentemente, a violência para a porta das escolas.

A evasão escolar é outro reflexo, como atesta a Federação das Associações de Pais e Alunos de Escolas Públicas de Minas Gerais (Fapaemg). Na tentativa de livrá-los das garras das drogas e mantê-los na escola, pais desesperados estão cada vez mais encaminhando os filhos a tratamentos psicológicos e contra a dependência química.
Drogas nas escolas de BH
Cenário sombrio
O cenário foi apontado no “Diagnóstico participativo das violências nas escolas: falam os jovens”. Os dados da pesquisa nacional feita em 2015 pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), em parceria com o MEC e a Organização dos Estados Interamericanos (OEI), foram divulgados recentemente.
Alunos foram ouvidos em escolas públicas de Belo Horizonte e outras seis capitais e relacionaram o consumo e a venda de drogas entre as transgressões mais comuns dentro e nas portas dos colégios.
Em horários variados, o Hoje em Dia percorreu as 19 escolas – 13 estaduais e seis municipais – da capital mineira envolvidas no diagnóstico. Flagrantes de consumo de drogas por estudantes antes de as sirenes anunciarem o início das aulas, no intervalo entre elas ou ao final do dia letivo fomentarão o debate proposto pela série de reportagens publicada a partir de hoje.
O panorama é considerado preocupante pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que lamenta não ter sido atendida pelas autoridades brasileiras ao recomendar, desde 2002, políticas públicas de combate ao problema.
Drogas nas escolas de Belo Horizonte
Quadro é preocupante e se agrava há 14 anos, afirma Unesco
Coordenadora de Educação da Unesco no Brasil desde 2012, a mestre em ciência da saúde Maria Rebeca Otero Gomes volta ao passado para avaliar a gravidade do quadro. Os reflexos das drogas no ambiente escolar foram abordados em estudo feito pela organização internacional em boa parte do país, em 2002. 
“A pesquisa já mostrava um cenário bastante preocupante por causa da relação da droga com a violência na escola. Neste trabalho de 2002, a Unesco fez uma série de recomendações aos gestores públicos de educação”, afirma Maria Rebeca.
Recomendações que não saíram do papel. “Não há políticas públicas específicas para combater a droga no ambiente escolar. Depende da boa vontade do professor ou da iniciativa dos pais de alunos. Não há uma ação pública homogênea. Seria ideal as escolas trabalharem com programas que apontem os riscos, que consigam provocar uma mudança de comportamento. Uma ação contínua ao longo dos anos escolares, adequada para cada faixa etária, levando em consideração o contexto social em que o estudante está inserido”, aponta a especialista.
Ação interrompida
Com apoio técnico da Unesco, o MEC e o Ministério da Saúde começaram em 2003 a executar o Programa Saúde e Prevenção nas Escolas. A proposta era abrir os olhos dos estudantes para temas como doenças sexualmente transmissíveis e os riscos relacionados ao consumo de drogas. 
“Foi produzido um excelente material educativo, como histórias em quadrinhos, para esse trabalho preventivo. Mas era preciso um grande esforço para captar recursos”, relembra Maria Rebeca.
Segundo ela, o programa mudou de nome, passando a se chamar apenas Saúde na Escola. “Ampliou muito para a prevenção de doenças, como a questão do zika vírus, mas a parte da droga foi deixada de lado. O material deixou de ser distribuído nas escolas em 2007”, lamenta.
Drogas nas escolas de BH