Amigos da família de menino morto por PM dizem que ele não tinha arma

Garoto estava em carro que foi perseguido após furto na Zona Sul.
Mãe já havia dito que não acreditava que o filho estava com uma arma. 

Menino de 10 anos, morto pela polícia, dirigia o carro. Ele estava acompanhado pelo amigo, de 11 (Foto: Reprodução/TV Globo)

Amigos e parentes do menino de 10 anos, morto com um tiro na cabeça depois uma perseguição policial em São Paulo, afirmam que ele não tinha arma, como mostrou a reportagem do SPTV. Na noite desta quinta-feira (2), o menino que morreu e outro garoto, de 11 anos, furtaram um carro dentro de um condomínio. Foram perseguidos pela polícia, teriam trocado tiros e o menor de 10 anos acabou morto com uma bala na cabeça.

A criança foi enterrada na manhã deste sábado (4), no Cemitério Jardim São Luiz, na Zona Sul. Parentes e amigos se despediram do garoto.
Na sexta-feira (3), a mãe já havia dito que não acreditava que o filho estava com uma arma. "Eu preciso ajudar meu filho, ele é uma criança de 10 aninhos, ele não ia saber atirar, é uma 38. Eles que colocou, eu tenho certeza que eles que colocou. A arma é dos policiais, eu quero fazer a digital", disse Cintia Ferreira Francelino, de 29 anos, mãe do menor.
Cristiane Mariana da Silva, amiga da família, não se conforma com o que aconteceu. “Eu não acredito, porque ele não tinha nenhuma arma”, disse.
“Não tem explicação para uma situação dessa. Não tem como ele andar armado, um menino de 10 anos dirigir e armado, ao mesmo tempo. Impossível, porque se ele estivesse armado, ele renderia a mulher do prédio, que foi a primeira pessoa que viu ele”, afirmou outra amiga da família.




Menor de 11 anos após sair de depoimento no DHPP
Foto: Reprodução / TV Globo

A Secretaria de Segurança Pública informou que o caso está sendo apurado com o rigor necessário e continuará sendo investigado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), por se tratar de morte durante intervenção policial. A corregedoria da PM também abriu inquérito administrativo e acompanha as investigações.
Os policiais militares envolvidos estão afastados do trabalho externo até a apuração da ocorrência.
Em um segundo depoimento, o amigo que estava com a vítima disse que não houve confronto com a polícia depois que o carro parou.
Perseguição
Na noite de quinta-feira (2), o menino de 10 anos e o amigo de 11 roubaram um carro de dentro da garagem de um condomínio, na Vila Andrade. Na fuga, eles bateram o carro na traseira de um ônibus e de um caminhão. O carro desgovernado quase atropelou um dos policiais, que correu pra cercar o veículo.

Os policiais disseram no boletim de ocorrência que o menino que dirigia o carro fez mais um disparo na direção deles e, por isso, eles atiraram.
O DHPP abriu inquérito para apurar a morte da criança, a cargo da Delegacia da Criança e do Adolescente. A delegada Elisabete Sato, na tarde de sexta-feira (3) disse que a versão de que menino de 10 anos atirou três vezes durante a perseguição policial estava sendo investigada. Ela leu o primeiro depoimento do amigo de 11 anos.
“Durante o percurso, foram alertados que parassem. Contudo, o amigo não obedeceu e efetuou dois disparos de dentro pra fora. Afirmou que seu amigo disparou novamente na direção dos policiais, momento que houve um revide e ele foi alvejado”, disse.
Novo depoimento
Na noite de sexta-feira, o amigo de 11 anos foi ouvido novamente, acompanhado pela mãe. O advogado Ariel de Castro Alves, membro do Conselho Estadual de Direitos Humanos, afirmou que o garoto mudou a versão, negando que o colega tivesse disparado contra a polícia depois que o carro parou.

“O que diferenciou do primeiro depoimento que ele prestou é que, no final, quando eles batem o carro, não teria ocorrido um confronto. E que nesse momento o policial teria disparado e atingido a cabeça do menino mais novo”, disse.
Outros delitos
Os meninos já haviam se envolvido em outros delitos e chegaram a ser recolhidos pelo Conselho Tutelar, na semana passada, quando furtavam em um condomínio da Zona Sul. Os meninos chegaram a ficar em abrigos, mas acabaram fugindo todas as vezes.

A Prefeitura de São Paulo disse que os dois meninos tiveram acompanhamentos psicológico e familiar. Ao todo, foram 20 atendimentos.
A reportagem do SPTV procurou o Conselho Tutelar em Santo Amaro neste sábado, mas ninguém foi encontrado.
Para o ouvidor das polícias, Júlio César Fernandes Neves, é inadmissível e surreal que uma criança tenha morrido baleada numa troca de tiros com a polícia.
“Nós temos que investigar com muita profundidade por ser uma criança, isso é inadmissível. Uma criança ser morta hoje ainda mais numa troca de tiro com a polícia. É surpreendente, é inacreditável, é surreal e é isso que a gente pretende sempre exigir dos órgãos correcionais, principalmente, da própria polícia do Estado de São Paulo”, disse.

Fonte: G1