Advogado responsabiliza empresa por tragédia na Mogi-Bertioga/SP

Segundo José Beraldo, o laudo de falha nos freios é a "materialidade delitiva"

A Tribuna

Polícia científica recolheu peças do ônibus sete dias após o acidente (Foto: Rogério Soares/AT)

A perícia da Polícia Científica concluiu que o ônibus da linha 12, da empresa União do Litoral, que tombou no último dia 8, na Rodovia Mogi-Bertioga, apresentava deficiência nos freios causada por desgaste excessivo. O veículo estava acima da velocidade permitida na via no momento da colisão. Porém, não se sabe se o excesso de velocidade está diretamente relacionado à falta de freios. Na tragédia morreram 18 pessoas e 16 ficaram feridas. 
Para José Beraldo, advogado dos estudantes sobreviventes e dos familiares das vítimas fatais, o laudo comprova que a empresa responsável pelo ônibus assumiu o risco de morte dos passageiros e do condutor. 
“(O laudo) É a materialidade delitiva. O dono da empresa foi criminoso. Ele matou os 17 universitários e o motorista, que faleceu como um verdadeiro herói tentando salvar vidas. Infelizmente isso já era uma tragédia pré-anunciada. A conduta com dolo eventual do dono da empresa deve ser levada a julgamento e já estamos tomando todas as medidas criminais e cíveis a favor das famílias. Vamos processar também a Prefeitura de São Sebastião, que é responsável junto com a empresa”, afirma. 
Alívio
Anderson da Silva, irmão do motorista do ônibus, Antônio Carlos da Silva, diz que o laudo, apesar de não amenizar a dor dele e das demais parentes das vítimas, foi recebido com alívio. “Esse resultado não traz ninguém de volta, mas garante a honra do meu irmão. Ele sempre foi muito responsável e amava a profissão que exercia. Ele jamais faria algo por retaliação às críticas ou um abaixo-assinado”, diz Anderson, que não pretende processar a União do Litoral. 
“Vamos aguardar a conclusão das investigações para pensar no que fazer. Porém, já adianto que não temos nenhuma intenção de entrar com ação contra a empresa, pois sempre recebemos muito apoio por parte deles”, explica o irmão do motorista.
Perícia nos cintos 
O marinheiro Leonardo Lopes de Souza, namorado da universitária Maria Maceno, que morreu no acidente, também não se mostrou surpreso com o laudo. Porém, acredita que o motorista agiu com imprudência ao volante. 
“Eu penso que as duas situações contribuíram para essa fatalidade (falha nos freios e excesso de velocidade). Em conversas com alguns sobreviventes, eles alegam que o motorista costumava pegar a estrada em alta velocidade. Ali é um trecho que não dá para exagerar no volante. Uma hora vai acabar perdendo o controle, como aconteceu”, comenta Souza. 
“Além dos freios, peço para que a perícia faça uma vistoria também nos cintos de segurança. Toda vez que viajávamos de ônibus, a Maria fazia o uso dos cintos. Se essas peças estivessem funcionando tenho certeza que muitas mortes teriam sido evitadas”, acrescenta o namorado da vítima. 
Maria Alves de Lima, mãe da estudante Rita de Cássia de Lima, alegou que já suspeitava de falhas mecânicas, uma vez que, naquela semana, o ônibus já havia quebrado outras vezes. 
“Na segunda e na terça-feira, ele (coletivo) parou na estrada por conta de problemas. Na quarta-feira veio a tragédia. Isso tudo é responsabilidade da empresa e da Prefeitura de São Sebastião. Espero que paguem por isso. Hoje para todos eles é um dia comum como os outros. Para nós, familiares, é mais um dia de luto”, desabafa.
Permissão
À época do acidente, a empresa União do Litoral informou que o ônibus estava apto para o serviço e com as vistorias rigorosamente em dia. E que o veículo também passara por manutenção preventiva havia 15 dias. O contrato de locação do coletivo foi firmado com a Prefeitura de São Sebastião, da onde os universitários partiam para estudar em Mogi das Cruzes. 
A Prefeitura de São Sebastião, a União do Litoral e a Agência Reguladora de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) foram procuradas por A Tribuna, mas não se manifestaram.