Página no Facebook flagra assaltos no Rio de Janeiro a cidade onde irá acontecer os jogos olímpicos

Empresário carioca filma ação de criminosos no centro; para historiador, vídeos materializam insegurança e fazem crítica ao Estado

O Tempo
“Rio de Nojeira”. Página mostra centenas de assaltos ocorridos no centro do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro. Cenas que fazem parte de uma triste rotina do Rio de Janeiro ganharam destaque no Facebook. Criada há menos de três meses na rede social, uma página mostra jovens assaltando pedestres no centro, do Largo da Carioca até a avenida Nilo Peçanha, passando por trechos da avenida Rio Branco e da rua da Assembleia. Toda essa área é vista da janela do escritório de um empresário, de onde ele passou a flagrar, com uma câmera, roubos a partir de dezembro de 2015.

Desde fevereiro, os registros já atraíram mais de 217 mil seguidores de 44 países e, até quinta-feira passada, tinham mais de 27 milhões de visualizações. Com mais de mil vídeos gravados, o empresário não economizou na indignação ao batizar a página de “Rio de Nojeira”.

“Devo ter visto da janela mais de mil bandidos diferentes. Sou contra a violência e acho que muitos dos jovens que filmo têm chance de serem recuperados. Tem gente que me escreve dizendo que tem que matar, que tem que bater. Eu não curto essas mensagens porque não aprovo isso”, comentou o empresário.

No mês passado, a equipe de uma TV japonesa o procurou, pedindo para fazer imagens de assaltos no Centro. Ele usou uma sala emprestada por um de seus seguidores, na avenida Presidente Vargas. O material captado foi exibido no Japão e repercutiu mundialmente.

Para a antropóloga Alba Zaluar, professora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj, ao escolher o nome da página o empresário quis chamar a atenção de outros indignados. Mas faz uma ressalva: “O autor da página quer causar um impacto emocional. Tanta procura não me surpreende. A exploração do crime como algo atrativo é antiga”.

Segundo Marcos Breta, professor do Instituto de História da UFRJ, a página contém ingredientes de violência que muita gente, apesar de exposta, nunca vivenciou. “As pessoas costumam materializar a insegurança que sentem vendo ações como essas. As imagens apresentam dois lados: alimentam a insegurança, ao mostrar o que as pessoas sentem, e fazem uma crítica ao Estado. Hoje, iniciativas pessoais como esta estão acontecendo o tempo todo. O celular está fazendo isso.

PM aprova iniciativa e faz parceria

Rio de Janeiro. Segundo o subcomandante do 5º BPM, major Alan de Luna Freire, a iniciativa do empresário foi bem recebida pela corporação, que propôs uma parceria. Ao flagrar jovens em atitudes suspeitas, a PM é chamada para fazer o policiamento ostensivo no trecho. Segundo o major, deter jovens em flagrante ou em situação de risco permite, por exemplo, identificar a origem deles. “São de áreas como Jacarezinho, Manguinhos, Madureira, centro e até de outros municípios”, diz.