Hoje em Dia
 
Dos homens do ministério do governo interino do presidente Michel Temer (PMDB), praticamente metade não tem a qualificação necessária para a pasta a qual foi nomeado. Dos 23 cargos de primeiro escalão, 11 foram preenchidos por políticos que não têm familiaridade com a área nem formação profissional necessária.
 

A indicação nos ministérios foi política. A ação de Temer desagradou muitos representantes de vários setores. Um dos exemplos que chamou mais a atenção foi o do bispo licenciado da Igreja Universal, o novo ministro da Indústria e Comércio, pastor Marcos Pereira (PRB), devido à inexperiência na área. Após a nomeação, ele admitiu a falta de afinidade com a pasta.
Na avaliação do professor de Economia da UFMG e conselheiro do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (UFMG), Cláudio Gontijo, as escolhas feitas por Temer foram pessoais e têm sido vistas pelo mercado como troca de favores políticos.
“É inadmissível, em um momento como este, assumir um ministro que não tenha experiência ou vivência na área que ele vai comandar. Como ele vai implementar ideias de melhoria? E quando o assunto for técnico?”, rechaça.
Em áreas mais sensíveis, como a indústria, Gontijo acredita que o engajamento do ministro com o atividade deveria ser maior. “Não precisa ser técnico, mas poderia ser um empresário, alguém da Federação das Indústrias”, ressalta. Afinal, a produção industrial caiu 8,8% em 2015, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O faturamento do setor e os empregos acompanharam o ritmo negativo. Em Minas, o faturamento despencou quase 17%.
Educação
Na pasta da Educação, o ministro Mendonça Filho (DEM) também tem sofrido sistemáticas críticas. Para o coordenador do projeto “Pensar a educação, Pensar o Brasil”, professor Luciano Mendes, da UFMG, Mendonça Filho não difere do conjunto do governo provisório.

“Não há serviço público mais complexo do que a educação. Estamos falando de 50 milhões que vão à escola todos os dias, mais de 2 milhões de professores, 200 mil escolas no Brasil. É um ministério de grande complexidade que deveria ser gerido por alguém que conhece minimamente do assunto”, argumenta.
 

Arte
Por governabilidade, presidente mantém fisiologismo
As nomeações de Temer têm rendido críticas não apenas por serem políticas, mas principalmente porque o peemedebista havia prometido uma nova forma de gestão, contra o fisiologismo na distribuição de cargos que tanto criticou. No entanto, reeditou a receita da compra de governabilidade distribuindo cargos a partidos aliados.
No ministério de Minas e Energia, por exemplo, o novo responsável pela pasta é Fernando Bezerra Filho (PSB), um administrador de 32 anos. O coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da UFRJ, Nivalde de Castro, afirma que a inexperiência do ministro pode ser uma via de mão dupla.
Ele destaca que o novo comandante da pasta tanto pode travar os setores quanto pode sugerir soluções mais práticas para problemas antigos, principalmente no setor elétrico.
Como exemplo, ele cita os riscos de investimentos assumidos pelas companhias. “O setor elétrico e o minerário são muito específicos, cheios de leis próprias e regulados. São setores difíceis de dirigir. É necessário muito conhecimento”, diz.
Normalidade
Para o cientista político e professor do Insper, Fernando Luis Schuler, as indicações políticas são parte da construção do governo. “A aptidão não depende da formação acadêmica. Depende de uma trajetória de vida, que o habilita”, argumenta. Para ele, nesse sentido não há uma diferença muito significativa em relação ao governo anterior, mas sim na linha política do governo e na visão de Estado, de mercado.

Já o doutor em Ciências Sociais, Paulo Diniz, avalia que as questões mais técnicas são de responsabilidade do pessoal de carreira. Além disso, os secretários-executivos dos ministérios também cumprem essa função, enquanto os ministros cuidam mais das negociações políticas e dão o direcionamento para as funções técnicas.