Governo suspende cestas básicas e pacientes com hanseníase protestam

Grupo acampou no prédio da Fhemig, na manhã desta quarta-feira (27), e alega não receber o benefício do Estado, desde janeiro deste ano

O Tempo

Parte dos pacientes com hanseníase,  moradores das colônias ligadas à Fundação Hospitalar de Minas Gerais (Fhemig) acamparam no prédio da instituição, em Belo Horizonte, nesta quarta-feira (27) para protestar contra a suspensão do fornecimento de cestas básicas. O benefício, segundo os manifestantes, não é entregue pelo governo do Estado, desde janeiro deste ano.  
“Estou desempregado e minha família está quase passando fome”. O desabafo é de Adílson Mendes de Oliveira, de 44 anos, que tem hanseníase, e é pai de três: uma menina de 12, um garoto de 14 e um jovem de 21. Há cerca de cinco meses, a família, moradora de Ubá, na Zona da Mata mineira, passa por dificuldades após o Estado suspender o benefício.
Para Adílson, a situação em casa está insustentável. “Sempre contei com os alimentos. Dependemos dessas cestas. Os leites eles ainda entregam, mas de uma outra marca, mais fraco. Os meus filhos tomam remédios fortes e o leite não sustenta”, explicou.
As colônias foram criadas na década de 1930. Ao todo, 800 pessoas que já se curaram da doença, mas que ainda apresentam sequelas, vivem nesses locais que, hoje, são tratados como Casa de Saúde. Por mês, o Estado distribui 429 cestas nas quatro colônias, sendo 228 para a de Betim, 97 para a de Ubá, 73 para a de Bambuí, e 31 para a de Três Corações.
De acordo com uma das integrantes do Conselho de Mães, Mônica Abreu, que realiza o ato, além da colônia Padre Damião de Ubá, a colônia São Francisco, em Babuí, na região Centro-Oeste, e a Santa Fé, em Três Corações, no Sul de Minas, também passam pelo mesmo problema.

“É desumano o que estão fazendo com essas pessoas. Desde que existem as colônias no Estado, o governo disponibiliza comida. Agora, o Pimentel suspendeu as cestas. Tivemos uma audiência com uma comissão da saúde na semana passada, mas não nos explicaram o que aconteceu”, explicou Mônica.
A interrupção no fornecimento, segundo informou a Fhemig, se deu em função da empresa licitada responsável pela entrega das cestas nas quatro colônias atendidas pelo Estado decidir em janeiro desistir da licitação. A vencedora da concorrência era responsável pelo fornecimento das colônias de Ubá, Santa Fé, em Três Corações, São Francisco de Assis, em Bambuí, e Santa Izabel, em Betim.
Com a desistência da empresa, o Estado decidiu que ocorreria um processo licitatório para atender cada colônia. Das quatro, apenas a unidade de Ubá ainda não começou a receber as cestas atrasadas. "Na próxima sexta-feira (29), irá ocorrer às 9h um pregão das empresas que se inscreveram na licitação. Acreditamos que na primeira semana de maio esses moradores já voltem a receber a cesta, inclusive as atrasadas", afirmou Cordovil Neves de Souza, que é um dos membros do Grupo de Apoio e Assessoramento das Casas de Saúde da Fhemig.
Além da cesta, cada umas dessas 800 pessoas recebe mensalmente 15 litros de leite, cinco quilos de carne, por duas a três vezes por mês, e um botijão de gás a cada 30 dias. Os idosos que moram sozinhos e que não conseguem fazer sua própria alimentação recebe a alimentação pronta. São cerca de 200 marmitas distribuídas para as quatro casas de saúde.
A fundação afirma continuar mantendo essas colônias, mesmo com os pacientes já curados, como uma espécie de ação social. "Esse é um compromisso histórico que nós temos. Quando a Fhemig foi criada, foi incorporada o objetivo de continuar mantendo o tratamento para três áreas específicas no Estado, sendo de urgência e emergência, a saúde mental dos pacientes e a constituição dessas colônias de hanseníases. Este é um público, em sua maioria, idoso e por isso nós o chamamos de complexo de 'cuidado ao idoso' e que ainda merecem nossa ajuda", explicou Souza.
A Fhemig afirma que a alimentação é enviada para os pacientes que foram internados compulsoriamente no passado e que hoje estão curados e permanecem nas colônias. Já os parentes deste pacientes que moram na área da colônia ou no entorno não recebem a assistência.
A moradora também afirma que o Estado pretende repassar aos ocupantes das colônias o valor cobrado pela energia elétrica. "Assim como a alimentação, os pacientes que ainda se tratam devido a sequelas da hanseníase e moram no local continuaram tendo o valor da conta de Luz paga pela Cemig", declarou Souza.
"A reivindicação desses moradores da região ocorre porque em Ubá havia apenas um padrão único, mas há três anos, ainda no governo anterior, o padrão foi individualizado. Isso quer dizer que cada morador tem um padrão. O público antigo continuará tendo a conta paga pela Cemig. Mas o novo morador, o comerciante, a igreja e quem chegou depois irá pagar a conta", alegou. O Estado  também é responsável pelo o pagamento da água desses moradores que tiveram a doença e que hoje estão curados.
Nessas colônias, o governo também arca com o tratamento médico desses moradores.  Além desses pacientes que vivem na colônia, 1.300 pessoas são atendidas por ano em Minas com hanseníase. No Brasil, os dados do Ministério da Saúde apontam que são 31 mil pessoas atendidas por anos com a doença.
Verba
Por ano, o governo do Estado direciona cerca de 70 milhões para custear o valor de vários serviços públicos das quatro colônias. "Esses 70 milhões são direcionados para cemitério,  hospitais, entre outros serviços disponibilizados pelo governo que beneficiam também os moradores do entorno dessas casas de saúde e de moradores da cidade que procurem atendimento na colônia", afirmou Souza. 
Manifestação
Um grupo de familiares e pacientes acamparam, na manhã desta quarta-feira (27), na Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), em Belo Horizonte como forma de protesto.
“Conseguimos trazer os afetados das três cidades. Eles trouxeram colchões e cobertores. Só vão deixar o local quando o governo apresentar uma solução satisfatória”, disse Monica.